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sexta-feira, 26 de junho de 2020

Elefante

A arte da colagem do belga Sammy Slabbinck, cumpre duas finalidades: primeiro ela tem um caráter dinâmico, uma vez que as fotografias recortadas de revistas vintage são deslocadas de seu âmbito original de expectativa e de associação. Segundo, por meio desse ato de deslocamento, Slabbinck explora o efeito de conjugar elementos díspares, geralmente com uma pitada de humor, para criar uma composição contemporânea ● O artista alemão Max Ernst (1891-1976) trabalhava de uma tal maneira, que cada representação da realidade simplesmente deveria desaparecer. A sua manipulação de elementos da realidade começou bem cedo em sua obra, algo que ele próprio denominou de "falso absoluto", que era aproximar duas realidades separadas até chegar a um valor novo absoluto, verdadeiro e poético, um quadro que ultrapassasse a nossa noção de imagem, fazendo com que os elementos reais fossem relativizados e destruídos ● O governo federal do Brasil tem um elefante na sala — e dos grandes. "A verdade é deste mundo; se produz nele graças a múltiplas coerções. E detém nele efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua 'política geral' da verdade: ou seja, os tipos de discursos que acolhe e faz funcionar como verdadeiros ou falsos, o modo como uns e outros são sancionados; as técnicas e os procedimentos que se valorizam para obter a verdade; o estatuto dos que têm a tarefa de dizer o que funciona como verdadeiro." Michel Foucault (Vérité et pouvoir)
© Sammy Slabbinck, "Duppy Conqueror", 2012, colagem sobre papel, cortesia do artista / Link Sammy Slabbinck - collage art / Max Ernst, Celebes, The Elephant Celebes, 1921, óleo sobre tela, Tate Modern © ADAGP, Paris e DACS, Londres (Max Ernst: Bücher und grafiken, Eine Ausstellung des Instituts für Auslandsbeziehungen, Stuttgart, 1977) / Fotografia do presidente sobreposta ao anúncio publicitário da empresa Computer Systems Organization, Hewlett-Packard Company 

domingo, 26 de abril de 2020

Poesia


Parafraseando o artista, cartunista Rafael Corrêa: Poesia, Ele, o canalha, não suporta poesia "Eu quero a estrela da manhã/ Onde está a estrela da manhã? / Meus amigos meus inimigos / Procurem a estrela da manhã / Ela desapareceu ia nua / Desapareceu com quem? / Procurem por toda parte / Digam que sou um homem sem orgulho / Um homem que aceita tudo / Que me importa? / Eu quero a estrela da manhã / Três dias e três noites / Fui assassino e suicida / Ladrão, pulha, falsário / Virgem mal-sexuada / Atribuladora dos aflitos / Girafa de duas cabeças / Pecai por todos pecai com todos / Pecai com os malandros / Pecai com os sargentos / Pecai com os fuzileiros navais / Pecai de todas as maneiras / Com os gregos e com os troianos / Com o padre e com o sacristão / Com o leproso de Pouso Alto / Depois comigo / Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas / comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples / Que tu desfalecerás / Procurem por toda parte / Pura ou degradada até a última baixeza / Eu quero a estrela da manhã" (Estrela da manhã, Manuel Bandeira● "poesia em tempo de fome / fome em tempo de poesia / poesia em lugar do homem / pronome em lugar do nome / homem em lugar de poesia / nome em lugar de pronome / poesia de dar o nome / nomear é dar o nome / nomeio o nome / nomeio o homem / no meio a fome / nomeio a fome" (versos de Servidão de passagem - proêmio, Haroldo de Campos) ● "A folha da mangueira / cai na pele imóvel / da piscina. / E acerta no alvo / que ela mesma / determina. / Sou feito desse acaso. / Em mim, a eternidade termina" (Por acaso, Claudio Mello e Souza) ● "Os pássaros apressam o céu" (3 X 4, Armando Freitas Filho) ● "O que é a poesia que não salva nações ou povos?" (Czeslaw Milosz)  

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Camundongo


Ele se parece com o camundongo  "Mas vejamos agora este camundongo em ação. Suponhamos, por exemplo, que ele esteja ofendido (quase sempre está) e queira vingar-se. Acumula-se nele, provavelmente, mais rancor que no homme de la nature et de la vérité. É possível que um desejo baixo, ignóbil, de retribuir ao ofensor o mesmo dano, ranja nele ainda mais ignobilmente que no homme de la nature et de la vérité, porque este, devido à sua inata estupidez, considera sua vingança um simples ato de justiça; já o camundongo, em virtude de sua consciência hipertrofiada, nega haver nisso qualquer justiça. Atinge-se, por fim, a própria ação, o próprio ato de vingança. O infeliz camundongo já conseguiu acumular, em torno de si, além da torpeza inicial, uma infinidade de outras torpezas, na forma de interrogações e dúvidas; acrescentou à primeira interrogação tantas outras não resolvidas (...) Ali, no seu ignóbil e fétido subsolo, o nosso camundongo, ofendido, machucado, coberto de zombarias, emerge logo num rancor frígido, envenenado e, sobretudo, sempiterno." 
Fiodor Dostoievski (Como um Camundongo / Memórias do subsolo) 
(História da Feiura, Organização de Umberto Eco, tradução Eliana Aguiar, Record, 2014)

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Amarelo


Coração Amarelo (1968), uma cápsula pneumática com espaço suficiente para duas pessoas, que pode ser inserida em qualquer ambiente, para proporcionar uma mudança na pressão do ar, no tato e no tempo de reverberação — uma nova experiência sensorial. Coração Amarelo foi projetado pelo grupo vienense Haus-Rucker-Co, composto pelos arquitetos Laurids Ortner, Günter Zamp Kelp e o artista Klaus Pinter ● Neste autorretrato, as cores originais, cuidadosamente compostas por Vincent van Gogh (1853-1890), desbotaram com o tempo. Por exemplo, o fundo roxo que contrastava com seu chapéu de palha amarelo. Não se pode conhecer melhor Vincent do que através das suas cartas, cerca de setecentas e cinquenta. Escreve a seu irmão Theo em 23 de janeiro de 1889: "Sabes que Jeannin tem a peônia, que Quost tem a malva-rosa, mas eu tenho um pouco o girassol" ● As instruções de uso que acompanham a obra Capri-Batterie, do artista alemão Joseph Beuys (1921-1986), exibem a seguinte advertência: "Trocar a bateria após 1000 horas", mas a lâmpada nunca se esgota porque não pode ser ligada. Embora seja um dos objetos mais alegres que Beuys fez, Capri-Batterie contém muitos dos interesses do artista sobre política energética e sua preocupação com o consumo de recursos naturais e meio ambiente. Beuys foi membro do Partido Verde alemão, e trabalhou com o objetivo de desafiar as fronteiras entre natureza e cultura ● Infelizmente, já não enxergo mais as blusas amarelas costuradas com três metros de poente de Vladimir Maiakovski. O cenário agora é outro.
© Haus-Rucker-Co, Coração Amarelo, Viena, 1968 (Link Zamp Kelp Yellow heart) / Vincent van Gogh: Autorretrato com Chapéu de Palha, agosto-setembro 1887, óleo sobre papelão / State © Van Gogh Museum, Amsterdam / © Vincent van Gogh Foundation (Pierre Cabanne, Van Gogh, tradução M. H. Bairrão Oleiro, Editorial Verbo, 1971) / Joseph Beuys, Capri-Batterie, 1985, lâmpada, tomada de luz e limão, © VG Bild- Kunst, Bonn, Alemanha, fotografia © Antonia Reeve 

quarta-feira, 25 de março de 2020

O grande (irresponsável) ditador


Ah! Essas precauções...
Para desespero de seus parentes, o velho rei Mitridates, como todo mundo sabe, conseguiu tornar-se imune a todos os venenos... até que um bom tijolaço na cabeça liquidou o assunto. Mario Quintana (A vaca e o hipogrifo)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O tempo rodou num instante


Mais de cem cartazes de filmes brasileiros são retirados das paredes da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Dados sobre os longas também não estão mais disponíveis no site da agência (GaúchaZH) ● Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu a gente quer ter voz ativa no nosso destino mandar mas eis que chega a roda-viva e carrega o destino pra lá roda mundo, roda-gigante rodamoinho, roda pião o tempo rodou num instante nas voltas do meu coração a gente vai contra a corrente até não poder resistir na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir faz tempo que a gente cultiva a mais linda roseira que há mas eis que chega a roda-viva e carrega a roseira pra lá roda mundo, roda-gigante rodamoinho, roda pião o tempo rodou num instante nas voltas do meu coração a roda da saia, a mulata não quer mais rodar, não senhor não posso fazer serenata a roda de samba acabou a gente toma a iniciativa viola na rua, a cantar mas eis que chega a roda-viva e carrega a viola pra lá roda mundo, roda-gigante rodamoinho, roda pião o tempo rodou num instante nas voltas do meu coração o samba, a viola, a roseira um dia a fogueira queimou foi tudo ilusão passageira que a brisa primeira levou no peito a saudade cativa faz força pro tempo parar mas eis que chega a roda-viva e carrega a saudade pra lá roda mundo, roda-gigante rodamoinho, roda pião o tempo rodou num instante nas voltas do meu coração. (Canção Roda viva, 1967, de Chico Buarque)
Cartazes: O bravo guerreiro, 1969, direção Gustavo Dahl, design © Rubens Gerchman / Brasil verdade, 1968, Paulo Gil Soares, Capovilla, Geraldo Sarno e Gimenez dirigiram, design © Fernando Lemos / O anjo nasceu, 1969, direção Júlio Bressane, design © Thereza Simões / Marighella, direção Wagner Moura, 2019, Fotografia © Bob Wolfenson, filme boicotado pelo governo autoritário, incompetente, fascista. 

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Cores


"Em 1923 Kandinsky propôs estabelecer uma correspondência universal entre as três formas elementares e as três cores primárias: o triângulo, dinâmico, seria inerentemente amarelo; o quadrado, estático, intrinsecamente vermelho; e o círculo, com sua serenidade, naturalmente azul. Hoje, a equação   perdeu seu apelo universal e passou a funcionar como um signo flutuante capaz de assumir diversos significados — inclusive o de evocar a própria memória da Bauhaus" ● Em Color Sound 15, o artista suíço Karl Gerstner (1930-2017) explora os "sons das cores". Uma série de doze pranchas recortadas em "T" com distâncias iguais em números e as cores em intervalos iguais em percepção. Cada nuance possui uma modulação de sua claridade e saturação. Em outras palavras, cada um dos matizes desperta o observador sensível como uma sucessão de tons — ouça as cores, veja os sons ● O design gráfico era uma disciplina relativamente nova no Japão depois da Segunda Guerra Mundial. Durante os mais de quarenta anos de atividade como designer, criador e membro fundador do Centro de Design Japonês, o trabalho de Ikko Tanaka (1930-2002) converge num foco: a universalização de sua linguagem a partir de elementos da cultura japonesa a estilos gráficos modernos. Tanaka usava uma paleta simples, forte e primária, com predominância do preto, uma referência à técnica de pintura com tinta nanquim ● Fotografia produzida por Gordon Parks (1912-2006), para ilustrar o poema Reluctance (1913), de Robert Frost (1874-1963) sobre a busca do homem por uma vida significativa, usa deliberadamente cores discordantes, a fim de estabelecer uma conexão com o poeta da "linguagem comum". As cores vêm de uma janela com um vitral mosaico colorido e de uma parede pintada com uma cor forte, que o fotógrafo encontrou em um estúdio de cinema. Ele então dispôs a figura sombria e curvada, correndo para fora da janela para simbolizar o verso: "O coração ainda está dolorido de tanto procurar. Mas os pés perguntam: para onde?" 
(Ellen Lupton e J. Abbott Miller, ABC da Bauhaus, tradução André Stolarski, Cosac Naify, 2008) / © Karl Gerstner, Color Sound 15, Intro version, 1973, capa do catálogo Galerie Denise René, NY / © Ikko Tanaka, cartaz para companhia de dança japonesa Nihon Buyo, 1981, UCLA, Asian Performing Arts Institute (Jonathan Raimes, Lakshmi Bhaskaran, Design Retrô: 100 anos de design gráfico, Editora Senac, 2007) / Foto © Gordon Parks, The Window, 1960 (Color, Life Library of Photography, Time-Life books, 1970 / link The Gordon Parks Foundation)

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Fascismo


"Fascismo. Nome pelo qual ficou conhecido o regime político implantado na Itália no período de 1922-1945, baseado na ditadura de um único partido sob liderança de Benito Mussolini. Oportunistas e violentos, seus integrantes formaram esquadrões que não demoraram a atacar sindicatos, ligas e cooperativas. O fascismo, regime totalitário, baseava-se no culto do chefe do partido e do Estado e na obediência ao líder. O Partido Nacional Fascista (PNF), hierarquicamente organizado, apresentava-se como inimigo do comunismo, do socialismo e da democracia. O fascismo, rapidamente, ganhou apoio de diferentes segmentos sociais. Empresários alarmados com a crise e com a violência e animados com a aceitação de seu líder no exterior. O regime fascista teve o apoio da igreja ao resolver a chamada questão romana, conflitante desde 1870 e então solucionada com os Tratados de Latrão assinados em 1929. Nessa ocasião, o catolicismo foi proclamado religião oficial e a igreja alcançava sua soberania no Estado do Vaticano. Outro aspecto importante do fascismo foi o controle dos meios de comunicação, usados como instrumentos para divulgação dos valores fascistas" ● Penso em alguns episódios e declarações recentes de políticos brasileiros que poderiam servir como exemplares da ideologia fascista, mas não devemos transformar isso em uma profecia que se realizará ● O que seria a felicidade que não se medisse pela incomensurável tristeza com o que existe? Theodor W. Adorno (Minima Moralia)
(Antonio Carlos do Amaral Azevedo, Dicionário de nomes, termos e conceitos históricos, Editora Nova Fronteira, 1990) / montagem de fotos e ilustrações sobrepostas à reprodução de página do folheto Pentagram, designers © Alan Fletcher / © Colin Forbes e © Bob Gill, Londres, 1972

sábado, 5 de outubro de 2019

Fantoches


"Fantoches da Meia Noite é um marco do modernismo gráfico nas artes visuais, com jogos de sombra, de vazios e do espaço exterior da folha. O livro une o ilustrador Di Cavalcanti (1897-1976) ao editor Monteiro Lobato (1882-1948). Fantoches da Meia Noite é como um paradoxo anunciado, posto que em 1917 Monteiro Lobato faria a mais forte resistência à penetração do modernismo no Brasil, ao atacar a exposição de Anita Malfatti (1889-1964), 'Paranóia ou mistificação?', enquanto Di Cavalcanti seria um artista da Semana de Arte Moderna" ● O teatro de fantoches costuma se referir ao comportamento humano. A aparência dos bonecos, suas roupas e ações são quase sempre simbólicas. Os bonecos representam histórias ou fábulas que inspiram atos nobres nos espectadores ● O fantoche não articulado. Depois de ele sentir frio em Roma, classificou o aquecimento global como "uma invenção puramente marxista". Um fantoche manipulado por outro, continua defendendo o item mais polêmico de todo seu pacote anticrime, como o excludente de ilicitude que poderia livrar de punição agentes que cometessem excessos sob escusável medo, surpresa ou violenta emoção. O marechal Goering disse certa vez esta frase: "Quando ouço a palavra cultura, puxo o revólver". O fantoche chefe age da mesma maneira e, ainda por cima, ensina criança a simular arma com a mão. Por fim, o fantoche defeituoso. Tem dificuldade de entender os outros e de se fazer entender. Em uma ocasião, usou chocolates para explicar cortes de verbas nas universidades. O fantoche disse também que vai atrás da "zebra mais gorda" (os salários de professores nas universidades federais) ● Daqui, para onde vamos? John Cage
Capa Fantoches da Meia Noite, Emiliano Di Cavalcanti. São Paulo, Monteiro Lobato & Cia. Editores, 1921 (Paulo Herkenhoff, Biblioteca Nacional: a história de uma coleção, fotografia © Pedro Oswaldo Cruz, Editora Salamandra, 1996) / Montagem de fotos sobrepostas à reproduções de fantoches de mão do artista Paul Klee, 1920-1925 (Puppen, puppets, marionettes, Editions Galerie Suisse de Paris, Bern, 1979)

terça-feira, 1 de outubro de 2019

América Latina


"O jogo é este. Um documento preparado pelo serviço de pesquisa econômica da Secretaria de Agricultura dos Estados Unidos, só revelado a duras penas, porque o interesse oficial era mantê-lo em segredo para evitar polêmicas, diz o seguinte: — 'A menos que se faça revolucionária reavaliação das políticas agrícolas e de consumo em todo o mundo, os excedentes continuarão aumentando nos países ricos e a fome continuará aumentando nos países pobres'. Entre 1968 e 1970 os quatro maiores produtores de trigo (Estados Unidos, Canadá, Austrália e Argentina) reduziram de propósito, como manobra de marketing, suas plantações de 50 milhões para 32 milhões de hectares. Não há, afinal, nenhuma boa nova para os 500 milhões de famintos ● A história é nossa? O Brasil é estudado de cabo a rabo pelos norte-americanos, o que produz textos acadêmicos, algumas vezes engraçados. Num trabalho sobre a revolução de 30 o primeiro de seis itens é 'the Paraíba situation'. Mas a graça é episódica num conjunto cuja seriedade, e obstinação, se projeta na fixação de detalhes que dão ao fenômeno uma profundidade já distante dos pés da comunidade acadêmica brasileira. Na Xerox University Microfilms é possível obter documentos surpreendentes. Há na relação, estudos que possivelmente nunca serão feitos no Brasil. Judith Rae Shapiro, de Columbia, levantou as estruturas sociais e o papel do sexo entre índios Yanomama, do nordeste brasileiro. Nunca ouvi falar nessa tribo. O estudo a fundo do Brasil por acadêmicos norte-americanos dificilmente pode ser isolado das ações externas dos Estados Unidos. Uma tese da universidade de Columbia fala das futuras possibilidades em minério de ferro. E assim por diante ● Pinochet virou sinônimo de ditadura cruel, de brutalidade institucionalizada. Mas visita ao Uruguai, no momento, depois de estada no Chile, provoca a sensação surpreendente de que a opressão uruguaia é bem maior do que a chilena. Tem sentido procurar diferenças entre Pinochet e o governo cívico-militar uruguaio? O New York Times, que batia nessa tecla, já admite que a brutalidade na Argentina parte de comandos conhecidos, cujas cabeças estão à vista de quem quiser encará-las. Embora com a afirmação duvidosa de que melhora a situação dos direitos humanos, o sr. Todman está certo quando trata todos como farinha do mesmo saco ● Pode alguém imaginar Túpac Amaru cantando tangos? Foi a reação de um jurado diante da figura a óleo cujos traços lembram mais Gardel do que o herói popular peruano. Nenhum artista conseguiu o prêmio (cerca de dois mil dólares) oferecido pela Casa Popular do Peru. Foram recusados os 94 quadros apresentados. Para um outro crítico, Juan Acha, a questão é clara. 'Trata-se de incapacidade emocional produzida pelo esquecimento injusto e prolongado de um herói nacional de grande importância histórica, escreveu. Um outro quadro mostrou Túpac Amaru feito Buffalo Bill, de espingarda na mão e olhares de conquistador. A única menção honrosa pertenceu ao pintor Milnar Cajahuaringa, por uma cabeça muito parecida com a do herói. Mas o concurso exigia corpo inteiro numa tela de dois metros de altura por um de largura. Predominou um Túpac Amaru rechonchudo e puxado com força para o anão. A constatação é amarga. Os peruanos não têm ideia de como era seu herói nacional. Túpac Amaru permanece confinado em seu chapéu de 'quaker'" ● Trechos de crônicas políticas escritas por Newton Carlos (1927-2019), um pioneiro do jornalismo internacional.
(Newton Carlos, América Latina Dois pontos, Editora Codecri, 1978) / Logotipo Quaker, design © Saul Bass, 1969 / "Meninos e Meninas", de © Anna Bella Geiger, da série História do Brasil, 1975, cartões colados sobre fotos / © Guillermo Deisler, Sem título, 1977-79, colagem de recortes de jornal e fotocópias / Túpac Amaru (infelizmente não sei quem é o autor da ilustração)

Saudade


© Goebel Weyne (1933-2012): Cartaz para o filme A hora e a vez de Augusto Matraga (1965) ● Cartaz para a exposição de Paul Klee, acervo da Kunstsammlung, Düsseldorf, Alemanha, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 1972 ● Progressão Linear, desenho apresentado na mostra Campelo Costa e o Desenho Cearense, Sobrado Dr. José Lourenço, Fortaleza, Ceará, 2011

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Família


O uso simples e engenhoso de uma fotografia, o clássico retrato de família, e a combinação de diferentes padrões com pontos de retícula ampliados estruturam o cartaz The Screen Family, compondo um novo elemento visual em analogia com a renovação do Museu de Belas Artes, Le Locle, fechado por três anos para obras de modernização. O pôster foi desenvolvido por Clément Vauchez e Thomas Couderc, designers gráficos e fundadores do estúdio de design francês Helmo ● A escultura Nature Study, de Louise Bourgeois (1911-2010), chama a atenção para a sexualidade ambígua de sua criatura, que mais tarde a artista denominaria de "autorretrato simbólico". Os seios representam seu papel de nutrir como esposa e mãe de três filhos, enquanto as garras simbolizam a matriarca defendendo quem ela ama. Embora seja uma obra com narrativa extremamente pessoal para Bourgeois, temas como desejo, sexualidade, carinho e proteção são universais Em 1993, o então primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin (1922-1995) e o presidente da Organização de Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat (1929-2004), chegam a um entendimento histórico com a assinatura dos Acordos de Oslo — esperança de paz que será de curta duração. "Cante uma canção pela paz, não sussurre uma oração", essa ressonância extraordinária deve ser sempre lembrada. O designer gráfico israelense David Tartakover, formado na Bezalel Academy of Art and Design de Jerusalém, produziu, por conta própria, uma série de pôsteres sobre aquilo que o incomoda, sobretudo o conflito Israelense-Palestino. Com o slogan United Colors of Netanyahu, um pastiche dos anúncios da empresa Benetton, exibindo uma fotografia da família Netanyahu de férias em Nova York, cercada de seguranças, Tartakover trouxe para este cartaz sua experiência como designer e ativista político posicionando-se contra a violência que gera mais violência. Suas obras fazem parte de coleções permanentes de importantes museus da Europa, Japão e Estados Unidos e receberam diversos prêmios ● "Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os índios. Depois fomos os negros. Depois fomos imigrantes, mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam nosso nome. É por engano. Os Silva somos nós." Rubem Braga
Cartaz The Screen Family, Museu de Belas Artes, Le Locle, Suíça, 2012, © Helmo, cortesia de © Thomas Couderc e © Clément Vauchez (Links Studio Helmo / instagram Studio Helmo) / © Louise Bourgeois, Nature Study, escultura de biscuit, 1996 (Body of Art, Phaidon Editors, 2015) / Cartaz United Colors of Netanyahu, 1998, cortesia de © David Tartakover, Fotografia © David Karp (o premiê de Israel Binyamin Netanyahu e família, Nova York / Link The Palestine Poster Project Archives) / Rubem Braga, trecho de sua crônica Luto da família Silva ("família que não tem a mínima importância, mas que um dia ainda vai subir na política"), publicada em 1935, no jornal Folha do Povo, Recife

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Rabiscos


Na capa do folheto com o portfólio do escritório de design Minale Tattersfield, fundado em 1964, o logotipo da empresa, um rabisco. "Espontânea e duradoura, precisa, mas versátil, específica, mas aberta a intermináveis interpretações, a natureza contraditória do rabisco continua a nos inspirar". Marcello Minale e Brian Tattersfield ● O designer gráfico suíço Ruedi Külling criou uma das mais simples e memoráveis marcas gráficas, usada em cartazes e em pequenos anúncios impressos da caneta Bic. Rabiscando o nome do produto com uma caneta esferográfica, a imagem descreve perfeitamente o objeto que a produziu. Sua campanha para a Bic ganhou Leão de Ouro no Festival de Publicidade de Cannes ● Contre-écriture de Roland Barthes: "Durante o ato de escrever, meu corpo frui do prazer de traçar, de talhar ritmicamente uma superfície virgem (virgem infinitamente possível). Este prazer deve ser muito antigo: séries de incisões regularmente espaçadas foram encontradas nas paredes de algumas cavernas pré-históricas. Já era a escrita? De forma alguma. Tais traços, sem dúvida, nada queriam dizer; mas seu próprio ritmo denotava uma atividade consciente, provavelmente mágica ou, mais amplamente, simbólica: o traço dominado, organizado, sublimado (pouco importa) de uma pulsão" ● Imagem oficial: Eu posso ser um indivíduo sem caráter. E sou. Posso não ser um indivíduo sem caráter. Mas sou. 
Capa folheto Minale Tattersfield Symbol / Logotype / Corporate Identity Portfolio, Londres, 1977 / Cartaz Bic, design © Ruedi Külling, 1962 (Richard Hollis, Design Gráfico: uma história concisa, tradução Carlos Daudt, Martins Fontes, 2001) / Contre-écriture, aquarela de © Roland Barthes (trecho do prefácio de Civilisation de l'écriture, 1976)

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Silêncio


"A tentativa de não comunicar é, de qualquer modo, tão complexa quanto a tentativa de comunicar, e sem dúvida igualmente antiga. Mas a admissão formalizada dessa tentativa, desse enriquecimento do silêncio — mediante palavras, gestos ou sinais — é um fenômeno moderno que, no mundo ocidental, começou há menos de um século. Os filósofos cínicos, na Grécia antiga, que relutavam em dialogar, os padres do deserto, que se retiraram do mundo das relações sociais nos primeiros anos do cristianismo, 'o resto é silêncio', frase cunhada por Hamlet, da qual muito se abusou, prefiguram a nossa compreensão da impossibilidade de dizer. Mas é só no século XX que o poeta Stéphane Mallarmé apresenta, em desespero, a página em branco, Eugène Ionesco decreta, em suas peças, que 'o mundo impede que o silêncio fale', Beckett põe em cena um ato sem palavras, John Cage compõe uma música chamada 'Silêncio' e Pollock pendura na parede de um museu uma tela coberta de espirros mudos" (Alberto Manguel) ● Em 4'33" (1952), composição de John Cage (1912-1992), um pianista entra no palco, toma a postura de quem vai tocar e não toca nada. A música é feita pela tosse, o riso e os protestos do público, incapaz de curtir quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio ● Em 10 de dezembro de 2013, a Anistia Internacional divulgou sua campanha para marcar a data da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O pôster "Um minuto de Silêncio. Um minuto de Esperança", foi afixado nas ruas de Montreal, e convoca o observador a refletir e participar — para o fim da violência e o abuso contra as mulheres. Brasil registra 1 caso de agressão a mulher a cada 4 minutos ● A síndrome de imunodeficiência adquirida, ou aids, é identificada pela comunidade científica no início dos anos 80. Em 1982, Larry Speakes, secretário de imprensa de Ronald Reagan, riu quando perguntado se o presidente estava acompanhando a disseminação da aids. Diante do silêncio do governo e desmonte de programas de bem-estar social, o artista, ativista e escritor Avram Finkelstein e mais cinco amigos, Brian Howard, Chris Lione, Oliver Johnston, Charles Kreloff e Jorge Socarrás se uniram para criar um cartaz que incorporasse um forte apelo gráfico para mobilizar a população. O grupo inverteu o triângulo rosa que os nazistas usaram para identificar homossexuais durante o Holocausto, e acrescentaram o slogan Silence = Death (Silêncio = Morte). As ações dos coletivos Silence = Death, Gran Fury e do Comitê de Ação Contra Aids, o ACT UP, historicamente, ajudaram a salvar muitas vidas ● You have not converted a man because you have silenced him (Você não converteu um homem porque você o silenciou), anúncio institucional da série Great Ideas of Western Man, arte de Ben Shahn (1898-1969), pintor e designer gráfico norte-americano de origem lituana, para a Container Corporation of America, empresa fabricante de caixas de papelão. Um artista socialmente engajado, Shahn era atraído por temas que lidavam com a injustiça social ● "O silêncio e, sendo muitos, chegavam a se emendarem uns aos outros como se não tivessem mais assunto / Um silêncio de fita crepe". (Wlademir Dias-Pino)
(Alberto Manguel, Lendo Imagens: uma história de amor e ódio, tradução Rubens Figueiredo, Rosaura Eichemberg, Cláudia Strauch, Companhia das Letras, 2001) / Capa do livro Sounds Like Silence. John Cage - 4'33", Inke Arns, Dieter Daniels, Spector Books, 2012 (John Cage, De segunda a um ano, tradução Rogério Duprat, Editora Hucitec, 1985) / Cartaz Minute of Silence Minute of Hope, 2013, Foto © Shayne Laverdière, Amnesty International, agência Cossette, Canadá / Cartaz Silence = Death, 1986, design Avram Finkelstein, Nova York (Link Avram Finkelstein) / You have not converted a man because you have silenced him, 1968, arte © Ben Shahn, CCA, Smithsonian American Museum (o título do anúncio toma emprestada uma frase do escritor John Morley)

terça-feira, 9 de julho de 2019

Otimismo


Capa do livro Nihilist Communism, de Monsieur Dupont (uma crítica do otimismo — o dogma religioso que afirma que haverá um triunfo final do bem sobre o mal — na extrema esquerda: A fábula do corvo sedento e determinado. Num dia quente de verão, um corvo voava sobre a terra fértil de um país do sul, sentia sede em sua garganta. Ele conhecia bem o local e sabia de um rio próximo, onde poderia beber em segurança. Mas quando pousou ao lado do rio não encontrou nem um fio de água. O corvo estava prestes a desistir de sua busca quando viu um jarro sobre um muro debaixo de uma oliveira. O corvo voou para o galho mais baixo da árvore e enfiou a cabeça no jarro, mas infelizmente, a água estava muito rasa e o jarro muito fundo. Por sorte, o corvo era um intelectual, sabia que, se derrubasse o jarro, a água seria absorvida pela terra. Por isso, realizou um truque antigo conhecido desde o início do mundo por todos os corvos ávidos e sedentos. Em seu bico, carregava seixos do chão para o jarro. Ao colocar as pedras no jarro, o nível da água subiria. Então trouxe mais e mais pedras. A água não subiu. Irritado e desesperado, o corvo sedento olhou cada vez mais longe para mais pedras se acumularem ao redor do jarro, ele estava determinado a não ceder. Logo seu desejo por água foi esquecido, mas ele não parou de trazer mais pedras. Desta forma, o muro abaixo da oliveira ficou mais alto. Não é certo se este infeliz corvo morreu de sede, ou se foi assim que a religião começou ● O artista Yue Minjun é um representante do Realismo Cínico, um movimento artístico que surgiu após as manifestações na Praça da Paz Celestial em 1989. O riso congelado na arte de Minjun é uma crítica implícita à sociedade contemporânea chinesa ● Sem formação de designer, sua carreira e o livro Tibor Kalman: Perverse Optimist "são uma aula sobre como aprender no emprego, enfrentando desafios com criatividade e estabelecendo ideais de consciência social por meio do design. O livro de Tibor Kalman (1949-1999) começa com uma proclamação de 26 páginas, é uma exortação para que os designers gráficos se engajem nos dilemas éticos do tempo" ● Capa da revista Panta, ilustração Mr. Fish, uma dose de otimismo temperamental na veia, que não necessita buscar justificações racionais — ou que as encontra com facilidade no país do Tio Sam ● Assim, pois, tudo está bem: este mundo é "o melhor dos mundos possíveis". Leibniz
Capa Nihilist Communism, Monsieur Dupont Group, Ardent Press, 2002 / © Yue Minjun, detalhe da obra Sky, 1997, óleo sobre tela (reprodução Fondation Cartier) / Capa Tibor Kalman: Peverse Optimist, 1998 (retrato de Kalman pintado pela © Vanguard Studios de Bombaim, c.1992 / Jason Godfrey, Bibliográfico, tradução Cid Knipel, Cosac Naify, 2009) / Capa revista Panta, 2016, cortesia © Mr. Fish (Link Mr. Fish & Clowncrack Productions)

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Heróis?


As performances e intervenções do norte-americano William Pope.L muitas vezes ocorrem em locais inesperados. Para The Great White Way, Pope.L se arrastou ao longo de toda a Broadway, a rua mais longa da cidade de Nova York, vestido com uma fantasia de Super-Homem com um skate amarrado nas costas, que ele usou para atravessar cruzamentos o mais rápido possível. Começando na Estátua da Liberdade (através de uma balsa), o artista rastejou pela Wall Street e terminou o trajeto no Bronx. O trabalho foi concluído após nove anos, feito em etapas; Pope.L iria rastejar enquanto ele fosse fisicamente capaz, e retornaria em data posterior, do ponto onde parou. A performance: um Super-Homem negro, desprovido de superpoderes, é literalmente abatido. O ambiente urbano foi escolhido por sua dinâmica da vida contemporânea, "onde o 'cisma vertical' acomoda todas as mudanças possíveis" ● Macunaíma, entidade divina para os macuxis, acavais, arecunas, taulipangues, indígenas caraíbas. Com o passar dos tempos, Macunaíma foi-se tornando herói, personagem de aventuras, criando os homens de cera e depois de barro, esculpindo animais, transformando os inimigos em pedras. Na obra Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (1928), Mário de Andrade (1893-1945) mesclou as lendas e os mitos do Norte brasileiro. O autor construiu "um personagem de ficção que representasse o caráter indeciso do povo brasileiro e de sua cultura" (José de Paula Ramos Jr.). "O herói capenga que de tanto penar na terra sem saúde e com muita saúva, se aborreceu de tudo, foi-se embora e banza solitário no campo vasto do céu"  Transmetropolitan é o título de uma série de histórias em quadrinhos cyberpunk escrita por Warren Ellis, arte Darick Roberton, vencedora do Prêmio Eisner, publicada originalmente de 1997 a 2002 pela Editora italiana Panini Comics. O protagonista Spider Jerusalém é uma homenagem ao jornalista recalcitrante Hunter S. Thompson (1937-2005). Em Transmetropolitan, chineses, mexicanos, coreanos, pansexuais, androides, cachorros falantes, cristãos, vikings, indigentes ou um presidente raivoso são ressucitados pela tecnologia do século 23. Spider Jerusalém é um jornalista investigativo em conflito entre a verdade e a cidade — e as duas estão sempre tentando matá-lo, mas ele insiste em viver mais um dia para revelar o que nos aguarda no futuro.
© William Pope.L, (The Great White Way, 22 milhas, 9 anos, 1 rua, 2002-11/ Foto © Lydia Grey (Body of Art, Diane Fortenberry e Rebecca Morrill, Phaidon, 2015) / Macunaíma, Mário de Andrade, Editora Círculo do livro, 1985/ Capa © Noeli Silva Ribeiro (Luis da Camara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Editora Itatiaia, 1984 / Mário de Andrade, Macunaíma — O herói sem nenhum caráter, Editora Itatiaia, 1984) / Transmetropolitan © Warren Ellis / © Darick Roberton ( Editora Vertigo)

Bilhetes


Capa do livro The Fervent Years: the story of the Group Theatre 1931-1941, de Harold Clurman, fundador da companhia Group Theatre de Nova York, em 1931, em associação com os diretores Cheryl Crawford e Lee Strasberg. Na capa, o designer gráfico Paul Rand enfatiza um dos processos do bilhete de teatro: rasgado ● O documentarista e escritor Michael Moore já protestou contra o imperialismo — que instaura guerras em países alheios —, fraudes eleitorais, a proliferação de armas e seu uso sem controle. Em 2003, George W. Bush invadira o Iraque. Para Moore, era uma invasão ilegal, imoral e estúpida; no entanto não era como os norte-americanos enxergavam. No mesmo ano, seu filme Tiros em Columbine, sobre os massacres cometidos por dois garotos, ganhou o Oscar de melhor documentário. Moore subiu ao palco e disse: "Somos contra esta guerra, senhor Bush. Tome vergonha na cara". Ao chegar em casa, no norte de Michigan, Moore se deparou com uma montanha de esterco de cavalo na frente da sua garagem e dezenas de bilhetes fixados nas árvores: Fora! Mude para Cuba! Comunista! Escória! Traidor! Caia fora agora ou, caso contrário... De janeiro de 2005 a maio de 2007, ele não saiu muito de casa, não apareceu em nenhum programa de TV. Moore, simplesmente, sumiu do mapa ● Em 1967, a revista Holiday designou o fotógrafo norte-americano Bruce Davidson para fotografar o circo da família Duffy, na Irlanda. Um dos irmãos Duffy o ajudou a subir até o topo da tenda para ter uma visão panorâmica das performances. No chão, sua esposa, Emily Haas segurava o flash para iluminar a trapezista. Davidson notou que o refletor não estava posicionado corretamente. Ele gritou para Emily, mas ela não conseguia ouvir. O fotógrafo então anotou as instruções em uma pequena folha de papel e deixou cair. Davidson pôde ver Emily com os braços esticados tentando pegar o bilhete como se fosse algo mais precioso do mundo ● Acredite se quiser: "No final da história as drogas não estavam na universidade, mas no avião presidencial".
Design © Paul Rand, capa The Fervent Years, the story of the Group Theatre 1931-1941 / © Michael Moore cartaz  Fahrenheit 9/11 (Michael Moore, Adoro problemas, histórias da minha vida, tradução Carlos Szlak, Editora Lua de Papel, 2011) / Fotografia © Bruce Davidson, Magnum Photos, circo James Duffy, Irlanda, 1967 (Bruce Davidson, Circus, Steidl, 2007) /  (#forabolsonaro  #foratodacorja)

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Armas


No livro da fotógrafa suíça Mélaine Veuillet Tools of Disobedience (Ferramentas de Desobediência): uma série de fotografias feitas em 2014 em prisões da Suíça. São 185 imagens de artefatos produzidos clandestinamente pelos detentos no espaço prisional e apreendidos por agentes penitenciários. Veuillet estudou na Escola de Arte e Design de Genebra ● Feminist Avant-Garde, livro e uma exposição com mais de 200 obras documenta como artistas da década de 1970 recriaram coletivamente sua própria "imagem da mulher". Pela primeira vez, tornou-se fundamental para artistas como Cindy Sherman, Ana Mendieta e Francesca Woodman desmistificar as representações estereotipadas da mulher por meio da fotografia, performance, cinema e vídeo Os Fuzis, filme de Ruy Guerra, que escreveu o roteiro na Grécia e decidiu adaptar a história para o nordeste brasileiro, com a colaboração de Miguel Torres (1926-1962). O filme trata do envio de soldados do exército fortemente armados para reprimir a fome, protegendo armazéns de alimentos do poder local. No sertão, os flagelados são conduzidos por um religioso que prega a adoração a um boi santo que fará chover. No roteiro original eram lobos e não pessoas famintas que ameaçavam a cidade. Segundo o cineasta Glauber Rocha, “militares na tela 1963/64 — tortuosa previsão de um cataclísmico próximo destino" ● A série Inimigos, autorretratos de Gil Vicente empunhando armas contra a cabeça de líderes, recebeu da Funarte o Prêmio Marcantonio Vilaça em 2015. Como escreveu a curadora e crítica de arte Daniela Labra: "Em 'Inimigos', o artista dá um tiro de advertência para o alto, como um guerrilheiro que se move na possibilidade de fazer terrorismo sem sangue, através da imagem e da poesia. Representando-se na execução de um ato-limite, ele urra contra Estados ignóbeis e acorda para a luta os jovens e adultos anestesiados pelo consumismo e pelo prazer imediato. Assim, os desenhos de Gil Vicente advertem que a arma mais subversiva existente, mesmo com todos os sustos e espetáculos, consumos e tecnologias, é a capacidade de reflexão e de gerar sonhos" ● Aqui tem joão-de-barro, pintassilgo, pinta-roxo, pica-pau e colibri / Aqui tem canário-belga, araponga, assum-preto, curió e bem-te-vi / Aqui tem tanta andorinha, cambaxirra, quero-quero, rouxinol e juriti / Que servem de tiro ao alvo / Pra espantar o tédio / E o vazio do existir / Matador de passarinho (Rogério Skylab)
Confiscados, fotografia © Mélanie Veuillet, 2014 (reprodução Piseagrama # 11, 2017) / Feminist Avant-Garde: Art of the1970s in the Sammlung Verbund Collection, Viena, curadora Gabriele Schor, Prestel, 2016 / Os Fuzis, cartaz © Ziraldo, 1963 (Glauber Rocha, Revolução do cinema novo, Alhambra / Embrafilme, 1981) / © Gil Vicente, Autorretrato matando Ahmadinejad, 2010, carvão sobre papel, da série Inimigos, Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (Daniela Labra, trecho do texto "Arte fora da ordem", publicado originalmente no catálogo Inimigos Gil Vicente, 29ª Bienal de São Paulo, 2010. Link Gil Vicente)

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Absurdo


No livro La cantatrice chauve (A cantora careca), "antipeça" de Eugène Ionesco (1909-1994), o tipógrafo, diretor de arte e editor Massin (que parou de usar seu primeiro nome, Robert, na década de 1950) projetou no papel todas as nuances, inflexões e tiques que os atores viviam no palco. Massin conferiu a cada personagem uma tipografia específica que representava uma determinada voz, por exemplo, as mulheres expressando-se em itálico. Ele adotou mudanças de escala, efeitos de zoom e close-up do cinema e da história em quadrinhos. As palavras são dispostas obliquamente e se sobrepõem, combinadas às fotografias de Henry Cohen — com filme de alto contraste — dos atores. "Massin encontrou um equivalente gráfico: na parte em que a cortina do teatro se abria e revelava um palco escuro, as páginas do livro eram pretas, em outras partes, usaram-se folhas em branco, não impressas, para representar o silêncio. A interpretação gráfica de Massin estava conceitualmente sincronizada com a sátira existencial de Ionesco sobre linguagem e lógica" A cantora careca, primeira obra teatral de Eugène Ionesco — escrita em 1949 e encenada no ano seguinte — expressa a angústia dos personagens, resume nossa angústia. A peça abriu para o espectador um mundo moderno, grotesco e desumanizado. Assim como os personagens de Ionesco que trocam palavras banais, mecanicamente, nosso presidente da república e ministros de extrema-direita são apenas marionetes, engolfados em ideias estapafúrdias e declarações absurdas — em meio a um retrocesso social: "A censura do puritano se alimenta com furor de sua inveja. Quanto mais ele demonstra — e mesmo quanto mais ele se defende contra si e odeia a si próprio por não ser, ou não poder ser o feliz outro que ele detesta..." (Paul Valéry, A serpente e o pensar)
© Massin (La cantatrice chauve, Gallimard, 1964 / Steven Heller, Linguagens do design: compreendendo o design gráfico, tradução Juliana Saad, Rosari, 2007 / Richard Hollis, Design Gráfico: uma história concisa, tradução Carlos Daudt, Martins Fontes, 2001) / (montagem de fotos sobrepostas à reprodução do livro de Massin)