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terça-feira, 9 de julho de 2019

Otimismo


Capa do livro Nihilist Communism, de Monsieur Dupont (uma crítica do otimismo — o dogma religioso que afirma que haverá um triunfo final do bem sobre o mal — na extrema esquerda: A fábula do corvo sedento e determinado. Num dia quente de verão, o corvo voava sobre a terra fértil de um país do sul, sentia sede em sua garganta. Ele conhecia bem o local e sabia de um rio próximo, onde poderia beber em segurança. Mas quando pousou ao lado do rio não encontrou nem um fio de água. O corvo estava prestes a desistir de sua busca quando viu um jarro sobre um muro debaixo de uma oliveira. O corvo voou para o galho mais baixo da árvore e enfiou a cabeça no jarro, mas infelizmente, a água estava muito rasa e o jarro muito profundo. Por sorte, o corvo era um intelectual, sabia que, se derrubasse o jarro, a água seria absorvida pela terra. Por isso, realizou um truque antigo conhecido desde o início do mundo por todos os corvos ávidos e sedentos. Em seu bico, carregava seixos do chão para o jarro. Ao colocar as pedras no jarro, o nível da água subiria. Então trouxe mais e mais pedras. A água não subiu. Irritado e desesperado, o corvo sedento olhou cada vez mais longe para mais pedras se acumularem ao redor do jarro, estava determinado a não ceder. Logo seu desejo por água foi esquecido, mas ele não parou de trazer mais pedras. Desta forma, o muro abaixo da oliveira ficou mais alto. Não é certo se este infeliz corvo morreu de sede, ou se foi assim que a religião começou ● O artista Yue Minjun é um representante do Realismo Cínico, um movimento artístico que surgiu após as manifestações na Praça da Paz Celestial em 1989. O riso congelado na arte de Minjun é uma crítica implícita à sociedade contemporânea chinesa ● Sem formação de designer, sua carreira e o livro Tibor Kalman: Perverse Optimist "são uma aula sobre como aprender no emprego, enfrentando desafios com criatividade e estabelecendo ideais de consciência social por meio do design. O livro de Tibor Kalman (1949-1999) começa com uma proclamação de 26 páginas, é uma exortação para que os designers gráficos se engajem nos dilemas éticos do tempo" ● Capa da revista Panta, ilustração Mr. Fish, uma dose de otimismo temperamental na veia, que não necessita buscar justificações racionais — ou que as encontra com facilidade no país do Tio Sam ● Assim, pois, tudo está bem: este mundo é "o melhor dos mundos possíveis". Leibniz
Capa Nihilist Communism, Monsieur Dupont Group, Ardent Press, 2002 / © Yue Minjun, detalhe da obra Sky, 1997, óleo sobre tela (reprodução Fondation Cartier) / Capa Tibor Kalman: Peverse Optimist, 1998 (retrato de Kalman pintado pela © Vanguard Studios de Bombaim, c.1992 / Jason Godfrey, Bibliográfico, tradução Cid Knipel, Cosac Naify, 2009) / Capa revista Panta, 2016, cortesia © Mr. Fish (Link Mr. Fish & Clowncrack Productions)

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Heróis


As performances e intervenções do norte-americano William Pope.L muitas vezes ocorrem em locais inesperados. Para The Great White Way, Pope.L se arrastou ao longo de toda a Broadway, a rua mais longa da cidade de Nova York, vestido com uma fantasia de Super-Homem com um skate amarrado nas costas, que ele usou para atravessar cruzamentos o mais rápido possível. Começando na Estátua da Liberdade (através de uma balsa), o artista rastejou pela Wall Street e terminou o trajeto no Bronx. O trabalho foi concluído após nove anos, feito em etapas; Pope.L iria rastejar enquanto ele fosse fisicamente capaz, e retornaria em data posterior, do ponto onde parou. A performance: um Super-Homem negro, desprovido de superpoderes, é literalmente abatido. O ambiente urbano foi escolhido por sua dinâmica da vida contemporânea, "onde o 'cisma vertical' acomoda todas as mudanças possíveis" ● Macunaíma, entidade divina para os macuxis, acavais, arecunas, taulipangues, indígenas caraíbas. Com o passar dos tempos, Macunaíma foi-se tornando herói, personagem de aventuras, criando os homens de cera e depois de barro, esculpindo animais, transformando os inimigos em pedras. Na obra Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (1928), Mário de Andrade (1893-1945) mesclou as lendas e os mitos do Norte brasileiro. O autor construiu "um personagem de ficção que representasse o caráter indeciso do povo brasileiro e de sua cultura" (José de Paula Ramos Jr.). "O herói capenga que de tanto penar na terra sem saúde e com muita saúva, se aborreceu de tudo, foi-se embora e banza solitário no campo vasto do céu"  Transmetropolitan é o título de uma série de histórias em quadrinhos cyberpunk escrita por Warren Ellis, arte Darick Roberton, vencedora do Prêmio Eisner, publicada originalmente de 1997 a 2002 pela Editora italiana Panini Comics. O protagonista Spider Jersusalém é uma homenagem ao jornalista recalcitrante Hunter S. Thompson (1937-2005). Em Transmetropolitan, chineses, mexicanos, coreanos, pansexuais, androides, cachorros falantes, cristãos, vikings, indigentes ou um presidente raivoso são ressucitados pela tecnologia do século 23. Spider Jerusalém é um jornalista investigativo em conflito entre a verdade e a cidade — e as duas estão sempre tentando matá-lo, mas ele insiste em viver mais um dia para revelar o que nos aguarda no futuro.
© William Pope.L, (The Great White Way, 22 milhas, 9 anos, 1 rua, 2002-11/ Foto © Lydia Grey (Body of Art, Diane Fortenberry e Rebecca Morrill, Phaidon, 2015) / Macunaíma, Mário de Andrade, Editora Círculo do livro, 1985/ Capa © Noeli Silva Ribeiro (Luis da Camara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Editora Itatiaia, 1984 / Mário de Andrade, Macunaíma — O herói sem nenhum caráter, Editora Itatiaia, 1984) / Transmetropolitan © Warren Ellis / © Darick Roberton ( Editora Vertigo)

Bilhetes


Capa do livro The Fervent Years: the story of the Group Theatre 1931-1941, de Harold Clurman, fundador da companhia Group Theatre de Nova York, em 1931, em associação com os diretores Cheryl Crawford e Lee Strasberg. Na capa, o designer gráfico Paul Rand enfatiza um dos processos pelo qual o bilhete de teatro passa: rasgado ● O documentarista e escritor Michael Moore já protestou contra o imperialismo — que instaura guerras em países alheios —, fraudes eleitorais, a proliferação de armas e seu uso sem controle. Em 2003, George W. Bush invadira o Iraque. Para Moore, era uma invasão ilegal, imoral e estúpida; no entanto não era como os norte-americanos enxergavam. No mesmo ano, seu filme Tiros em Columbine, sobre os massacres cometidos por dois garotos, ganhou o Oscar de melhor documentário. Moore subiu ao palco e disse: Somos contra esta guerra, senhor Bush. Tome vergonha na cara. Ao chegar em casa, no norte de Michigan, Moore se deparou com uma montanha de esterco de cavalo na frente da sua garagem e dezenas de bilhetes fixados nas árvores: Fora! Mude para Cuba! Comunista! Escória! Traidor! Caia fora agora ou, caso contrário... De janeiro de 2005 a maio de 2007, ele não saiu muito de casa, não apareceu em nenhum programa de TV. Moore, simplesmente, sumiu do mapa ● Em 1967, a revista Holiday designou o fotógrafo norte-americano Bruce Davidson para fotografar o circo da família Duffy, na Irlanda. Um dos irmãos Duffy o ajudou a subir até o topo da tenda para ter uma visão panorâmica das performances. No chão, sua esposa, Emily Haas, segurava o flash para iluminar a trapezista. Davidson notou que o refletor não estava posicionado corretamente. Ele gritou para Emily, mas ela não conseguia ouvir. O fotógrafo então anotou as instruções em uma pequena folha de papel e deixou cair. Davidson pôde ver Emily com os braços esticados tentando pegar o bilhete como se fosse algo mais precioso do mundo ● Acredite se quiser: "No final da história as drogas não estavam na universidade, mas no avião presidencial".
Design © Paul Rand, capa The Fervent Years, the story of the Group Theatre 1931-1941 / © Michael Moore cartaz  Fahrenheit 9/11 (Michael Moore, Adoro problemas, histórias da minha vida, tradução Carlos Szlak, Editora Lua de Papel, 2011) / Fotografia © Bruce Davidson, Magnum Photos, circo James Duffy, Irlanda, 1967 (Bruce Davidson, Circus, Steidl, 2007) /  (#forabolsonaro  #foratodacorja)

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Armas


Em seu livro Tools of Disobedience (Ferramentas de Desobediência), a fotógrafa suíça Mélaine Veuillet produziu uma série de fotografias feitas em 2014 em prisões da Suíça. São 185 imagens com artefatos produzidos clandestinamente pelos detentos no espaço prisional e apreendidos por agentes penitenciários. Veuillet estudou na Escola de Arte e Design de Genebra ● Feminist Avant-Garde, livro e uma exposição com mais de 200 obras documenta como artistas da década de 1970 recriaram coletivamente sua própria "imagem da mulher". Pela primeira vez, tornou-se fundamental para artistas como Cindy Sherman, Ana Mendieta e Francesca Woodman desmistificar as representações estereotipadas da mulher por meio da fotografia, performance, cinema e vídeo Os Fuzis, filme de Ruy Guerra, que escreveu o roteiro na Grécia e decidiu adaptar a história para o nordeste brasileiro, com a colaboração de Miguel Torres (1926-1962). O filme trata do envio de soldados do exército fortemente armados para reprimir a fome, protegendo armazéns de alimentos do poder local. No sertão, os flagelados são conduzidos por um religioso que prega a adoração a um boi santo que fará chover. No roteiro original eram lobos e não pessoas famintas que ameaçavam a cidade. Segundo o cineasta Glauber Rocha, “militares na tela 1963/64 — tortuosa previsão de um cataclísmico próximo destino" ● A série Inimigos, autorretratos de Gil Vicente empunhando armas contra a cabeça de líderes, recebeu da Funarte o Prêmio Marcantonio Vilaça, em 2015. Como diz a curadora e crítica de arte Daniela Labra: "Em 'Inimigos', o artista dá um tiro de advertência para o alto, como um guerrilheiro que se move na possibilidade de fazer terrorismo sem sangue, através da imagem e da poesia. Representando-se na execução de um ato-limite, ele urra contra Estados ignóbeis e acorda para a luta os jovens e adultos anestesiados pelo consumismo e pelo prazer imediato. Assim, os desenhos de Gil Vicente advertem que a arma mais subversiva existente, mesmo com todos os sustos e espetáculos, consumos e tecnologias, é a capacidade de reflexão e de gerar sonhos" ● Aqui tem joão-de-barro, pintassilgo, pinta-roxo, pica-pau e colibri / Aqui tem canário-belga, araponga, assum-preto, curió e bem-te-vi / Aqui tem tanta andorinha, cambaxirra, quero-quero, rouxinol e juriti / Que servem de tiro ao alvo / Pra espantar o tédio / E o vazio do existir / Matador de passarinho (Rogério Skylab)
Confiscados, fotografia © Mélanie Veuillet, 2014 (reprodução Piseagrama # 11, 2017) / Feminist Avant-Garde: Art of the1970s in the Sammlung Verbund Collection, Viena, curadora Gabriele Schor, Prestel, 2016 / Os Fuzis, cartaz © Ziraldo, 1963 (Glauber Rocha, Revolução do cinema novo, Alhambra / Embrafilme, 1981) / © Gil Vicente, Autorretrato matando Ahmadinejad, 2010, carvão sobre papel, da série Inimigos, Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (Daniela Labra, trecho do texto "Arte fora da ordem", publicado originalmente no catálogo Inimigos Gil Vicente, 29ª Bienal de São Paulo, 2010. Link Gil Vicente)

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Absurdo


No livro La cantatrice chauve (A cantora careca), "antipeça" de Eugène Ionesco (1909-1994), o tipógrafo, diretor de arte e editor Massin (que parou de usar seu primeiro nome, Robert, na década de 1950) projetou no papel todas as nuances, inflexões e tiques que os atores viviam no palco. Massin conferiu a cada personagem uma tipografia específica que representava uma determinada voz, as mulheres expressando-se em itálico, por exemplo. Ele adotou mudanças de escala, efeitos de zoom e close-up do cinema e da história em quadrinhos. As palavras são dispostas obliquamente e se sobrepõem, combinadas às fotografias de Henry Cohen — com filme de alto contraste — dos atores. "Massin encontrou um equivalente gráfico: na parte em que a cortina do teatro se abria e revelava um palco escuro, as páginas do livro eram pretas, em outras partes, usaram-se folhas em branco, não impressas, para representar o silêncio. A interpretação gráfica de Massin estava conceitualmente sincronizada com a sátira existencial de Ionesco sobre linguagem e lógica" A cantora careca, primeira obra teatral de Eugène Ionesco — escrita em 1949 e encenada no ano seguinte — expressa a angústia dos personagens, resume nossa angústia. A peça abriu para o espectador um mundo moderno, grotesco e desumanizado. Assim como os personagens de Ionesco que trocam palavras banais, mecanicamente, nosso presidente da república e ministros de extrema-direita são apenas marionetes, engolfados em ideias estapafúrdias e declarações absurdas — em meio a um retrocesso social: "A censura do puritano se alimenta com furor de sua inveja. Quanto mais ele demonstra — e mesmo quanto mais ele se defende contra si e odeia a si próprio por não ser, ou não poder ser o feliz outro que ele detesta..." (Paul Valéry, A serpente e o pensar)
© Massin (La cantatrice chauve, Gallimard, 1964 / Steven Heller, Linguagens do design: compreendendo o design gráfico, tradução Juliana Saad, Rosari, 2007 / Richard Hollis, Design Gráfico: uma história concisa, tradução Carlos Daudt, Martins Fontes, 2001) / (montagem de fotos sobrepostas à reprodução do livro de Massin)

sábado, 8 de dezembro de 2018

Entre sem bater


No fim da década de 1980, nos Estados Unidos, um grupo de políticos republicanos tentou abolir as verbas públicas para arte que mostrasse homossexualidade, feminismo, racismo e outros temas controversos. As "Guerras da Cultura" — como a polêmica ficou conhecida — foram em parte desencadeadas pelas imagens sadomasoquistas e homoerotismo de fotógrafos como Robert Mapplethorpe (1946-1989). No livro A Câmara Clara, Roland Barthes usa esta fotografia de Mapplethorpe para distinguir a foto erótica da foto pornográfica. A pornografia representa o sexo, faz dele um objeto imóvel (um fetiche). A foto erótica, ao contrário, não faz do sexo um objeto central, ela pode muito bem não mostrá-lo; ela leva o espectador para fora de seu enquadramento. "Como se a imagem lançasse o desejo para além daquilo que ela dá a ver: não somente para 'o resto' da nudez, não somente para o fantasma de uma prática, mas para a excelência absoluta de um ser, alma e corpo intricados" ● As obras da série Braile, de León Ferrari (1920-2013), superpõe textos escritos em braile sobre reproduções de fotografias de corpos nus, imagens religiosas ou elementos de tortura, o que obriga o espectador a um paradoxo: deve-se tocar — mais precisamente percorrer a superfície do papel diante do eventual olhar dos outros. Esse contato, no entanto, não dará ao visitante a informação que procura. Tudo o que pode ver está compelido a um ato cego. "Para Ferrari, as questões de poder são debatidas e inseridas no terreno do corpo. É nesse espaço íntimo onde se define o alcance da liberdade de uma civilização. Convertido em testemunha, crítico e historiador, o artista rastreou a trama com a qual o poder político e religioso fez do corpo um campo de batalha: A arte, meu filho, é uma mulher muito bonita que chora quando a deixam sozinha. Às vezes a vemos muito digna com chapéus emplumados veludos e colares entre senhores que a convidam com champanhe. Às vezes alguns tantos sacerdotes acomodam-na em um altar e a nomeiam a grande virgem de uma hermética religião. Mas às vezes também por sorte e com todo seu beneplácito um bando escandaloso a rouba da igreja e a leva em procissão deita-a em um matagal e lhe arranca as quatro vestes e entre uivos e gargalhadas procede à fornicação conscienciosamente (isto é o que se chama etapa de gestação). Quando vir esta cerimônia, meu filho, não pare para escutar os prantos e lamentos de ciúmes e invejas dos frades e senhores que não a fizeram gozar" ● Capa e meia página do livro Pornografie, de Klaus Staeck, traz uma seleção de 286 fotos publicadas na imprensa: vítimas da Guerra do Vietnã, prisioneiros sendo torturados, brigas de rua, brutalidade policial, um manifesto sobre a violência do século XXI, tão sem sentido, tão obscena ● Segundo o filósofo alemão Herbert Marcuse (1898-1979), "a repressão sexual e a repressão social são indissociáveis em nossa cultura. Denunciou inclusive a aparente tolerância existente no liberalismo de certas sociedades industriais avançadas como uma pseudoliberdade, conduzindo no fundo ao conformismo".
© Robert Mapplethorpe, autorretrato, polaroid, 1975. Link Robert Mapplethorpe Foundation (Tudo sobre fotografia, editora geral Juliet Hacking, tradução Fabiano Morais, Fernanda Abreu e Ivo Korytowski, Sextante, 2012) / © León Ferrari, Sem título, 2004, poema União livre, de André Bretón, escrito em braile sobre fotografia de © Ferdinando  Scianna. Col. Alicia e León Ferrari / A arte, manuscrito, 1964 (León Ferrari: retrospectiva. Obras 1954-2006, Andrea Giunta (edição e organização), tradução Ana Paula Gomes, Cosac Naify, 2006) / © Klaus Staeck, Pornografie, Steinbach, Giessen: Anabas-Verlag, Günter Kampf, 1971. Link Klaus Staeck(Hilton Japiassú, Danilo Marcondes, Dicionário básico de filosofia, Jorge Zahar Editora, 2008)

terça-feira, 27 de novembro de 2018

A roupa nova do imperador


Liberté = Wolność (Liberdade, em francês e polonês), por Roman Cieślewic(1930-1996), cartaz em que a imagem pintada protagoniza a maior carga de significantes da mensagem — objetivos e subjetivos —, reduzindo a presença da tipografia, característica da escola polonesa de design, para manifestar sua solidariedade à proibição da pena de morte na França, abolida em 30 de setembro de 1981, e manifestar sua solidariedade às lutas contra a opressão: decretado estado de sítio na Polônia, em 13 de dezembro de 1981 ● As capas da Piauí fazem parte do conteúdo editorial da revista. Em 2016, Dilma Rousseff é afastada e Michel Temer assume interinamente a presidência da República. Ilustração de Nadia Khuzina, artista russa radicada na Califórnia, uma apoiadora de Donald Trump, editora do blog de charges políticas, Pencils Will Not Save Us. Recentemente Temer emendou um modus vivendi: ignorando o ajuste fiscal e o aumento dos gastos públicos, sancionou reajuste salarial dos ministros do STF ● "Que lugar as imagens ocupam entre outros tipos de evidência histórica? Uma solução mais comum para o problema de tornar concreto o abstrato é mostrar indivíduos como encarnações de ideias ou valores. As imagens de governantes são frequentemente em estilo triunfante". A escultura de Donald Trump faz parte do projeto The Emperor Has No Balls (O Imperador Não Tem Bolas), do coletivo INDECLINE, formado por grafiteiros, músicos, cineastas, fotógrafos e ativistas. Os pequenos detalhes da estátua reforçam a mensagem de protesto contra a visão política e as declarações polêmicas de Trump  Stefan Sagmeister, formado em design gráfico na University of Applied Arts, em Viena, e mestrado no Pratt Insitute, em Nova York. Um de seus projetos mais conhecidos, o cartaz de palestras da AIGA Detroit, onde as informações foram escritas com um estilete em seu próprio corpo. Sagmeister obteve um resultado autêntico ao tentar transmitir visualmente a dor que acompanha a maioria dos projetos de design: "Sim, doeu muito".
© Roman Cieślewicz, cartaz Liberté = Wolność , 1981 / Capa da revista Piauí 116, maio 2016, cortesia © Nadia Khuzina / © INDECLINE / Ginger, Naked Trump, 2016, escultura de resina (Link This is Indecline) / (Peter Burke, Testemunha ocular: história e imagem, tradução Vera Maria Xavier dos Santos, EDUSC, 2004) / © Stefan Sagmeister, pôster AIGA Detroit, 1999, fotografia © Tom Schierlitz (Link Sagmeister & Walsh)

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Branco


O cartaz Radion, do artista gráfico polonês Tadeusz Gronowski (1894-1990), mostrando o poder branqueador do detergente pela transformação de um gato preto pulando num tanque de lavar e saindo de lá branco, ganhara em 1925 o grande prêmio da exposição de Arts Décoratifs em Paris ● Em 1918 o pintor Kazimir Malevitch cria a composição Quadrado Branco sobre Fundo Branco: "A combinação de branco sobre branco não oferece contraste, não conhece ideais místicos ou estéticos. O quadrado central está ligeiramente inclinado e parece liberto das leis da gravidade. O quadrado branco não se encontra nem à frente nem atrás, mas sim suspenso como nada no nada." A teoria desta arte abstrata a que denominou suprematismo foi redigida em um manifesto junto com Maiakóvski, em 1915 ● Antes de estudar pintura em várias escolas, Richard Hamilton (1922-2011), artista da Pop Art britânica, dedicou-se a uma carreira em design gráfico e publicidade. Em 1968, Hamilton foi convidado por Paul McCartney para projetar a capa e cartaz do nono disco dos Beatles. Embora tenha descoberto um repertório anterior quase inexplorado no visual da cultura comercial, há uma qualidade silenciosa no conceito de Hamilton, evidenciada pela simplicidade do design: The Beatles, mais conhecido como "White Album" ● "Uma tela inteiramente branca no centro da qual Jonas tinha apenas escrito, em caracteres minúsculos, uma palavra que se podia decifrar, mas que não se sabia se era solitário ou solidário". Albert Camus (Jonas / O exílio e o reino)
© Tadeusz Gronowski, cartaz Radion, 1925 (Richard Hollis, Design gráfico: uma história concisa, tradução Carlos Daudt, Martins Fontes, 2001) / Kazimir Malevitch, Quadrado Branco sobre Branco, 1918, óleo sobre tela, Museum of Modern Art (Jeannot Simmen, Kolja Kohlhoff, Kazimir Malevitch - vida e obra, tradução Marta Mendonça, Könemann, 2001) / The Beatles , White Album, 1968, design © Richard Hamilton, Tate Modern 

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

E agora, José?


Pintura de Guillaume Corneille, representante do irreverente grupo CoBrA, a primeira experiência do pós-guerra no campo das artes plásticas. CoBrA, resultado das primeiras sílabas de Copenhague, Bruxelas e Amsterdam, onde os artistas viviam e trabalhavam. Durante seu curto tempo de atuação — de 1948 a 1951, houve um interessante debate sobre a reconstrução do mundo a partir da perspectiva de que a arte fosse incorporada à vida do cidadão comum de forma tão natural como os livros de uma biblioteca pública ou as notícias do dia-a-dia. Nestes tempos em que ruíram os mitos da esquerda e da direita, e o embate entre as correntes estéticas esmaeceu, o movimento CoBrA provoca reflexões sobre questões atuais ● O italiano Mario Merz (1925-2003) foi um dos principais artistas do movimento da Arte Povera, termo criado em 1967 pelo crítico Germano Celant. A obra Che Fare? consiste em uma travessa de alumínio (usada para assar um peixe inteiro), com cera de abelha e as palavras em neon modeladas com a caligrafia do artista. Merz começou a usar a frase "che fare?" a partir de 1967, que pode ser traduzida como "o que fazer?" ou "o que deve ser feito?". O conceito desse trabalho está associado com o discurso de Lenin, em que ele usou a frase como slogan revolucionário em 1902. Mas não foi o discurso de Lenin que lhe chamou a atenção. Merz disse ter lido a frase num livro do escritor russo Nikolai Tchernichevski e a pergunta o deixou intrigado, principalmente, depois de observar crianças brincando e constantemente se perguntando "o que vamos fazer?" ● Charge do Jaguar — Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, carioca do bairro do Estácio, cartunista, ilustrador, desenhista, jornalista, cronista. Iniciou sua carreira na revista Manchete, em 1957. Foi considerado "pé-frio", depois de fechar várias publicações onde trabalhou. Funda em 1969, o revolucionário semanário O Pasquim. No jornal A Tarde Jaguar apresenta suas crônicas e charges na coluna Crônica do Jaguar. Com 86 anos, o cartunista parece estar longe de diminuir o ritmo e humor crítico: "Se o capitão e o general forem eleitos, acredite se quiser, teremos muitas, mas muitas saudades do Temer" ● ... você marcha, José! / José, para onde? Carlos Drummond de Andrade
© Guillaume Corneille, Nu, 1978, óleo sobre tela (Revista do MASP - Museu de Arte de São Paulo, # 2, artigo Militantes da utopia) / © Mario Merz, Che Fare? 1968, alumínio, cera e neon, Tate / National Galleries of Scotland / © Jaguar, O país do futuro já era, charge publicada no jornal A Tarde, 11 de agosto de 2018 / versos do poema José, de Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Cartazes que contam histórias


"Criados por organizações internacionais de solidariedade, os cartazes políticos eram difundidos aos milhares em vários países." O cartaz de solidariedade ao Brasil, a palavra Solidariedade é repetida em cinco idiomas, foi editado em Viena por Bruno Furch (1913-2000), militante austríaco antifascista e combatente das Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) ● "Particularmente emblemático, o cartaz da reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) divulgado em 1977, mostra o físico italiano Galileu Galilei no momento em que, condenado pela inquisição e obrigado a dizer que a Terra era imóvel, murmura: 'É, mas mesmo assim se move'" ● "A anistia de 1979 é fruto de longa campanha de pessoas que estiveram em defesa da democracia e contra a violência da ditadura. Sem deixar de reconhecer o que nela se fez de justiça aos que resistiram corajosamente ao golpe de 1964, ela nunca foi a anistia almejada, uma vez que o próprio regime de então cuidou para que fosse parcial e restrita. Os militares tiveram o cuidado de proteger a si mesmos e àqueles que os apoiaram nas práticas de violação dos Direitos Humanos." ● "Os jornalistas também lutaram no processo para a conquista da democracia. Alguns pagaram com a vida, como o jornalista Vladimir Herzog, morto sob tortura no DOI-CODI paulista em 1975, sendo transformado posteriormente em patrono de um prêmio de Direitos Humanos, lançado em 1979. "Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados". (Vladimir Herzog)
Os Cartazes desta história: memória gráfica da resistência à redemocratização (1964-1985) / Vladimir Sacchetta (organização), José Luiz Del Roio, Ricardo Carvalho, São Paulo: Instituto Vladimir Herzog e Escrituras Editora, 2002 / Link Instituto Vladimir Herzog / cartaz Solidariedade Brasil © Bruno Furch / Cartaz  Eppur si Muove - Campanha de Fundos 1977 - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência / Cartaz 78 Anistia, Comitê Brasileiro pela Anistia, São Paulo, 1978 / Cartaz Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, 1979 (Créditos das imagens: Centro de documentação e Memória (CEDEM), UNESP / Fundos Instituto Astrojildo Pereira (IAP), Centro de Documentação do Movimento Operário Mario Pedrosa (CEMAP) e Oboré Editora) / Link Resistir é Preciso