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sábado, 8 de dezembro de 2018

Entre sem bater

No fim da década de 1980, nos Estados Unidos, um grupo de políticos republicanos tentou abolir as verbas públicas para arte que mostrasse homossexualidade, feminismo, racismo e outros temas controversos. As "Guerras da Cultura" — como a polêmica ficou conhecida — foram em parte desencadeadas pelas imagens sadomasoquistas e homoerotismo de fotógrafos como Robert Mapplethorpe (1946-1989). No livro A Câmara Clara, Roland Barthes usa esta fotografia de Mapplethorpe para distinguir a foto erótica da foto pornográfica. A pornografia representa o sexo, faz dele um objeto imóvel (um fetiche). A foto erótica, ao contrário, não faz do sexo um objeto central, ela pode muito bem não mostrá-lo; ela leva o espectador para fora de seu enquadramento. "Como se a imagem lançasse o desejo para além daquilo que ela dá a ver: não somente para 'o resto' da nudez, não somente para o fantasma de uma prática, mas para a excelência absoluta de um ser, alma e corpo intricados" ● As obras da série Braile, de León Ferrari (1920-2013), superpõe textos escritos em braile sobre reproduções de fotografias de corpos nus, imagens religiosas ou elementos de tortura, o que obriga o espectador a um paradoxo: deve-se tocar — mais precisamente percorrer a superfície do papel diante do eventual olhar dos outros. Esse contato, no entanto, não dará ao visitante a informação que procura. Tudo o que pode ver está compelido a um ato cego. "Para Ferrari, as questões de poder são debatidas e inseridas no terreno do corpo. É nesse espaço íntimo onde se define o alcance da liberdade de uma civilização. Convertido em testemunha, crítico e historiador, o artista rastreou a trama com a qual o poder político e religioso fez do corpo um campo de batalha". "A arte, meu filho, é uma mulher muito bonita que chora quando a deixam sozinha. Às vezes a vemos muito digna com chapéus emplumados veludos e colares entre senhores que a convidam com champanhe. Às vezes alguns tantos sacerdotes acomodam-na em um altar e a nomeiam a grande virgem de uma hermética religião. Mas às vezes também por sorte e com todo seu beneplácito um bando escandaloso a rouba da igreja e a leva em procissão deita-a em um matagal e lhe arranca as quatro vestes e entre uivos e gargalhadas procede à fornicação conscienciosamente (isto é o que se chama etapa de gestação). Quando vir esta cerimônia, meu filho, não pare para escutar os prantos e lamentos de ciúmes e invejas dos frades e senhores que não a fizeram gozar" ● Capa e meia página do livro Pornografie, de Klaus Staeck, traz uma seleção de 286 fotos publicadas na imprensa: vítimas da Guerra do Vietnã, prisioneiros sendo torturados, brigas de rua, brutalidade policial, um manifesto sobre a violência do século XXI, tão sem sentido, tão obscena ● Segundo o filósofo alemão Herbert Marcuse (1898-1979), "a repressão sexual e a repressão social são indissociáveis em nossa cultura. Denunciou inclusive a aparente tolerância existente no liberalismo de certas sociedades industriais avançadas como uma pseudoliberdade, conduzindo no fundo ao conformismo".
© Robert Mapplethorpe, autorretrato, polaroid, 1975. Link Robert Mapplethorpe Foundation (Tudo sobre fotografia, editora geral Juliet Hacking, tradução Fabiano Morais, Fernanda Abreu e Ivo Korytowski, Sextante, 2012) / © León Ferrari, Sem título, 2004, poema União livre, de André Bretón, escrito em braile sobre fotografia de © Ferdinando  Scianna. Col. Alicia e León Ferrari / A arte, manuscrito, 1964 (León Ferrari: retrospectiva. Obras 1954-2006, Andrea Giunta (edição e organização), tradução Ana Paula Gomes, Cosac Naify, 2006) / © Klaus Staeck, Pornografie, Steinbach, Giessen: Anabas-Verlag, Günter Kampf, 1971. Link Klaus Staeck(Hilton Japiassú, Danilo Marcondes, Dicionário básico de filosofia, Jorge Zahar Editora, 2008)

terça-feira, 27 de novembro de 2018

A roupa nova do imperador


Liberté = Wolność (Liberdade, em francês e polonês), de Roman Cieślewic(1930-1996), cartaz em que a imagem pintada protagoniza a maior carga de significantes da mensagem — objetivos e subjetivos —, reduzindo a presença da tipografia, característica da escola polonesa de design, para manifestar sua solidariedade à proibição da pena de morte na França, abolida em 30 de setembro de 1981, e manifestar sua solidariedade às lutas contra a opressão: decretado estado de sítio na Polônia, em 13 de dezembro de 1981 ● As capas da Piauí fazem parte do conteúdo editorial da revista. Em 2016, Dilma Rousseff é afastada e Michel Temer assume interinamente a presidência da República. Ilustração de Nadia Khuzina, artista russa radicada na Califórnia, uma apoiadora de Donald Trump, é editora do blog de charges políticas, Pencils Will Not Save Us. Recentemente Temer emendou um modus vivendi: ignorando o ajuste fiscal e o aumento dos gastos públicos, sancionou reajuste salarial dos ministros do STF ● "Que lugar as imagens ocupam entre outros tipos de evidência histórica? Uma solução mais comum para o problema de tornar concreto o abstrato é mostrar indivíduos como encarnações de ideias ou valores. As imagens de governantes são frequentemente em estilo triunfante". A escultura de Donald Trump faz parte do projeto The Emperor Has No Balls (O Imperador Não tem bolas), do coletivo INDECLINE, formado por grafiteiros, músicos, cineastas, fotógrafos e ativistas. Os pequenos detalhes da estátua reforçam a mensagem de protesto contra a visão política e as declarações polêmicas de Trump  Stefan Sagmeister, formado em design gráfico na University of Applied Arts, em Viena, e mestrado no Pratt Insitute, em Nova York. Um de seus projetos mais conhecidos, o cartaz de palestras da AIGA Detroit, onde as informações foram escritas com um estilete em seu próprio corpo. Sagmeister obteve um resultado autêntico ao tentar transmitir visualmente a dor que acompanha a maioria dos projetos de design: "Sim, doeu muito".
© Roman Cieślewicz, cartaz Liberté = Wolność , 1981 / Capa da revista Piauí 116, maio 2016, cortesia © Nadia Khuzina (Link Nadia Khuzina) / © INDECLINE / Ginger, Naked Trump, 2016, escultura de resina (Link This is Indecline) / (Peter Burke, Testemunha ocular: história e imagem, tradução Vera Maria Xavier dos Santos, EDUSC, 2004) / © Stefan Sagmeister, pôster AIGA Detroit, 1999, fotografia © Tom Schierlitz (Link Sagmeister & Walsh)

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Branco


O cartaz Radion, do artista gráfico polonês Tadeusz Gronowski (1894-1990), mostrando o poder branqueador do detergente pela transformação de um gato preto pulando num tanque de lavar e saindo de lá branco, ganhara em 1925 o grande prêmio da exposição de Arts Décoratifs em Paris ● Em 1918 o pintor Kazimir Malevitch cria a composição Quadrado Branco sobre Fundo Branco: "A combinação de branco sobre branco não oferece contraste, não conhece ideais místicos ou estéticos. O quadrado central está ligeiramente inclinado e parece liberto das leis da gravidade. O quadrado branco não se encontra nem à frente nem atrás, mas sim suspenso como nada no nada." A teoria desta arte abstrata a que denominou suprematismo foi redigida em um manifesto com Maiakóvski, em 1915 ● Antes de estudar pintura em várias escolas, Richard Hamilton (1922-2011), artista da Pop Art britânica, dedicou-se a uma carreira em design gráfico e publicidade. Em 1968, Hamilton foi convidado por Paul McCartney para projetar a capa e cartaz do nono disco dos Beatles. Embora tenha descoberto um repertório anterior quase inexplorado no visual da cultura comercial, há uma qualidade silenciosa no conceito de Hamilton, evidenciada pela simplicidade do design: The Beatles, mais conhecido como "White Album" ● "Uma tela inteiramente branca no centro da qual Jonas tinha apenas escrito, em caracteres minúsculos, uma palavra que se podia decifrar, mas que não se sabia se era solitário ou solidário". Albert Camus (Jonas / O exílio e o reino)
© Tadeusz Gronowski, cartaz Radion, 1925 (Richard Hollis, Design gráfico: uma história concisa, tradução Carlos Daudt, Martins Fontes, 2001) / Kazimir Malevitch, Quadrado Branco sobre Branco, 1918, óleo sobre tela, Museum of Modern Art (Jeannot Simmen, Kolja Kohlhoff, Kazimir Malevitch - vida e obra, tradução Marta Mendonça, Könemann, 2001) / The Beatles , White Album, 1968, design © Richard Hamilton, Tate Modern 

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

E agora, José?


Pintura de Guillaume Corneille, representante do irreverente grupo CoBrA, a primeira experiência do pós-guerra no campo das artes plásticas. CoBrA, resultado das primeiras sílabas de Copenhague, Bruxelas e Amsterdam, onde os artistas viviam e trabalhavam. Durante seu curto tempo de atuação — de 1948 a 1951, houve um interessante debate sobre a reconstrução do mundo a partir da perspectiva de que a arte fosse incorporada à vida do cidadão comum de forma tão natural como os livros de uma biblioteca pública ou as notícias do dia-a-dia. Nestes tempos em que ruíram os mitos da esquerda e da direita, e o embate entre as correntes estéticas esmaeceu, o movimento CoBrA provoca reflexões sobre questões atuais ● O italiano Mario Merz (1925-2003) foi um dos principais artistas do movimento da Arte Povera, termo criado em 1967 pelo crítico Germano Celant. A obra Che Fare? consiste em uma travessa de alumínio (usada para assar um peixe inteiro), com cera de abelha e as palavras em neon modeladas com a caligrafia do artista. Merz começou a usar a frase "che fare?" a partir de 1967, que pode ser traduzida como "o que fazer?" ou "o que deve ser feito?". O conceito desse trabalho está associado com o discurso de Lenin, em que ele usou a frase como slogan revolucionário em 1902. Mas não foi o discurso de Lenin que lhe chamou a atenção. Merz disse ter lido a frase num livro do escritor russo Nikolai Tchernichevski e a pergunta o deixou intrigado, principalmente, depois de observar crianças brincando e constantemente se perguntando "o que vamos fazer?" ● Charge do Jaguar — Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, carioca do bairro do Estácio, cartunista, ilustrador, desenhista, jornalista, cronista. Iniciou sua carreira na revista Manchete, em 1957. Foi considerado "pé-frio", depois de fechar várias publicações onde trabalhou. Funda em 1969, o revolucionário semanário O Pasquim. No jornal A Tarde Jaguar apresenta suas crônicas e charges na coluna Crônica do Jaguar. Com 86 anos, o cartunista parece estar longe de diminuir o ritmo e humor crítico: "Se o capitão e o general forem eleitos, acredite se quiser, teremos muitas, mas muitas saudades do Temer" ● ... você marcha, José! / José, para onde? Carlos Drummond de Andrade
© Guillaume Corneille, Nu, 1978, óleo sobre tela (Revista do MASP - Museu de Arte de São Paulo, # 2, artigo Militantes da utopia) / © Mario Merz, Che Fare? 1968, alumínio, cera e neon, Tate / National Galleries of Scotland / © Jaguar, O país do futuro já era, charge publicada no jornal A Tarde, 11 de agosto de 2018 / versos do poema José, de Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Cartazes que contam histórias


"Criados por organizações internacionais de solidariedade, os cartazes políticos eram difundidos aos milhares em vários países." O cartaz de solidariedade ao Brasil, a palavra Solidariedade é repetida em cinco idiomas, foi editado em Viena por Bruno Furch (1913-2000), militante austríaco antifascista e combatente das Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) ● "Particularmente emblemático, o cartaz da reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) divulgado em 1977, mostra o físico italiano Galileu Galilei no momento em que, condenado pela inquisição e obrigado a dizer que a Terra era imóvel, murmura: 'É, mas mesmo assim se move'" ● "A anistia de 1979 é fruto de longa campanha de pessoas que estiveram em defesa da democracia e contra a violência da ditadura. Sem deixar de reconhecer o que nela se fez de justiça aos que resistiram corajosamente ao golpe de 1964, ela nunca foi a anistia almejada, uma vez que o próprio regime de então cuidou para que fosse parcial e restrita. Os militares tiveram o cuidado de proteger a si mesmos e àqueles que os apoiaram nas práticas de violação dos Direitos Humanos." ● "Os jornalistas também lutaram no processo para a conquista da democracia. Alguns pagaram com a vida, como o jornalista Vladimir Herzog, morto sob tortura no DOI-CODI paulista em 1975, sendo transformado posteriormente em patrono de um prêmio de Direitos Humanos, lançado em 1979. "Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados". (Vladimir Herzog)
Os Cartazes desta história: memória gráfica da resistência à redemocratização (1964-1985) / Vladimir Sacchetta (organização), José Luiz Del Roio, Ricardo Carvalho, São Paulo: Instituto Vladimir Herzog e Escrituras Editora, 2002 / Link Instituto Vladimir Herzog / cartaz Solidariedade Brasil © Bruno Furch / Cartaz  Eppur si Muove - Campanha de Fundos 1977 - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência / Cartaz 78 Anistia, Comitê Brasileiro pela Anistia, São Paulo, 1978 / Cartaz Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, 1979 (Créditos das imagens: Centro de documentação e Memória (CEDEM), UNESP / Fundos Instituto Astrojildo Pereira (IAP), Centro de Documentação do Movimento Operário Mario Pedrosa (CEMAP) e Oboré Editora) / Link Resistir é Preciso

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Caubóis

Cartaz Peace is Tough, de Jamie Reid, encomendado pela Stop the War Coalition em 2003, em protesto contra a participação da Grã-Bretanha na guerra liderada pelos EUA no Iraque. O pôster mostra a "persona" heróica do ator John Wayne, o pistoleiro americano famoso por enfrentar os índios e poderosos fazendeiros, usando batom, um distintivo pacifista e o símbolo da paz em seu chapéu de caubói ● Em 1946, o artista belga Maurice de Bevère, mais conhecido pelo pseudônimo de Morris, criou as aventuras de Lucky Luke, um caubói simpático e desajeitado. Toda a história real e lendária da conquista do Oeste americano, com os seus fazendeiros, os seus barbeiros franceses, os seus donos de lavanderias chineses, os seus índios e foras-da-lei, tudo isso com muito humor, tanto no grafismo como na sátira dos costumes ● The Sheriff, primeira capa produzida pelo designer gráfico e ilustrador polonês Stanislaw Zagórski. "Produziu igualmente muitos pôsteres para filmes europeus nos anos 50 e 60, antes de se instalar em Nova York". Essas capas ilustradas englobam um capítulo significativo da história do design de capas de discos ● No início dos anos 80, as democracias populares criticam com vigor o regime soviético. Na Polônia, a contestação é promovida pelo sindicato Solidariedade (Solidarność) e por seu presidente, Lech Walesa. O cartaz que Tomasz Sarnecki criou para a primeira eleição legislativa na Polônia, era composto de uma foto do xerife Marshall Will Kane (interpretado por Gary Cooper no filme High Noon, 1952) e o logotipo do Solidariedade, desenvolvido pelo designer gráfico polonês Jerzy Janiszewski. Em 1990, Walesa é eleito o primeiro presidente anti-comunista da República da Polônia. No livro sobre história do século XX, Eric Hobsbawm afirma: "A não ser pela orientação socialista de um e a ideologia anti-socialista do outro, eram impressionantes as semelhanças entre o Partido dos Trabalhadores brasileiro e o movimento Solidariedade polonês contemporâneo: um líder proletário autêntico — um eletricista de estaleiro e um operário qualificado da indústria automobilística —, uma assessoria de alto nível de intelectuais e forte apoio da Igreja. São ainda maiores se nos lembrarmos que o PT buscava substituir a organização comunista que a ele se opunha".
© Jamie Reid, cartaz Peace is Tough, 2003, Victoria and Albert Museum (Link Stop the War Coalition) / © Morris, Lucky Luke na capa da revista Spirou, 28 de outubro de 1965 (La Bande Dessinée, Editions Seghers, 1978) / The Moodern Jazz Quartet, The Sheriff, design © Stanislaw Zagórski, 1964, Atlantic (Joaquim Paulo, Ed. Julius Wiedemann, Jazz covers, Taschen, 2012) / cartaz Eleição Legislativa na Polônia,1989, design © Tomasz Sarnecki, Autry Museum of the American West (Eric Godeau, Imagens que contam o mundo, tradução Maria da Anunciação Rodrigues, Edições SM, 2007) 

sábado, 13 de outubro de 2018

Índios


"Na origem de todos os relatos sobre o Brasil está a memória de um viajante alemão, Hans Staden, que narra sua estada entre os índios brasileiros. Tomado por português e inimigo, Stadem é preso pelos Tupinambás, ameaçado de morte e devoração canibal. A astúcia de Staden consiste em se colocar como instrumento da vontade divina e na sua capacidade de predizer fenômenos da natureza e, desse modo, simular controle sobre os índios". A narrativa de seu cativeiro junto aos índios Tupinambás, causou grande impacto desde a época de sua primeira publicação, em 1557. A reedição mais importante é a de Theodore De Bry, publicação ilustrada sob orientação de Staden, para tornar o relato verossímil  Extinção, editorial da revista Piseagrama: "Preocupado com o empobrecimento do solo pela devastação das florestas, estimadas em 1,5 milhões de quilômetros quadrados, e alarmado pela possibilidade de uma calamidade pública nacional com o esgotamento das matas, o Ministério da Agricultura lançou, em 1958, o Plano Nacional de Reflorestamento, convocando todo brasileiro a ser  'um amigo da pátria plantando árvores'. O Serviço de Proteção aos Índios (SPI), que em 1967 passaria a se chamar FUNAI, aderiu ao plano naquele mesmo ano, comprometendo-se a distribuir 50 mil mudas, principalmente de árvores frutíferas, entre os diversos Postos Indígenas Avançados pelo país. O objetivo, divulgava-se, era incentivar entre os indígenas o amor às árvores. As mudas, conseguidas nas próprias regiões, eram ensacadas ou plantadas em latas descartadas pelas frenéticas obras rodoviárias em curso e distribuídas nas aldeias. Passadas quase seis décadas, a fotografia da chegada das plantas aos Yawalapiti, tidos naquele momento como praticamente extintos, guarda a profecia das imagens xamânicas: enquanto os índios se multiplicam cultivando a floresta, apesar dos planos persistentes e sistemáticos para dizimá-los, os amigos da pátria derrubam árvores como nunca antes na história desse país"  O cartaz 30 Posters on environment and development - Eco 92, de Rafic Farah, "é uma colagem composta por um recorte da conhecida figura de um índio brasileiro com o arco retesado, feita por Rugendas no século XIX; no fundo, páginas justapostas de uma lista telefônica, sugerindo uma multidão indistinta de alvos potenciais da flecha prestes a ser lançada. O índio, habitante original das terras brasileiras, é visto assim como o defensor da natureza, em luta contra os inimigos dela, representados pela massa 'urbana e civilizada'."  "Deveríamos repensar toda a questão da cultura indígena e nossa relação com ela, como sugeria o antropólogo francês Pierre Clastres, que viveu entre várias etnias no Brasil. Ele lembrava que nós, 'civilizados', costumamo-nos referir a índios não pelo que eles têm, mas sim pelo que não têm — não usam roupas, não têm dinheiro, não dominam nossas tecnologias. Esquecemo-nos da força de culturas em que a sociedade não delega poder a ninguém (o chefe não manda, não dá ordens; é o que mais sabe dessa cultura, da divisão do trabalho; é o grande mediador de conflitos). Um índio na força de sua cultura também não depende de ninguém: sabe fazer tudo de que precisa — a casa, a roça, seus objetos do cotidiano. E a informação é aberta, o que um sabe todos podem saber; como todos são autossuficientes, ninguém domina ninguém. É o que Clastres chama de 'democracia do consenso'. Uma boa lição para quem está vivendo, hoje, os dramas da relação da nossa sociedade com o poder." (Washington Novaes)
Detalhe da gravura Preparo da carne humana em episódio canibal, de Theodore De Bry (Ana Maria de Moraes Belluzzo, O Brasil dos viajantes, Objetiva, Metalivros, 1999) / Foto autor desconhecido, índia Yawalapiti, 1958. Na divulgação da capa, o Facebook bloqueou a página da revista, que retratava uma índia com seios nus (Extinção, PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 8, página 1, 2015 / Link Piseagrama/ © Rafic Farah, 30 Posters on environment and development - Eco Rio 92 (Chico Homem de Melo e Elaine Ramos, Linha do tempo do design gráfico no Brasil, Cosac Naify, 2011) / Washington Novaes, trecho de seu artigo Aprender com o índio, não tentar destruí-lo, O Estado de S. Paulo, 2016 / Cartaz Simpósio sobre Pierre Clastres, IMEC, 2017 / Foto © Claude Lévi-Strauss, índio Bororo (1935-1939). 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Ele não


Janela sobre a memória (II)
Um refúgio?
Uma barriga?
Um abrigo onde se esconder quando estiver se afogando na chuva, ou sendo quebrado pelo frio, ou sendo revirado pelo vento?
Temos um esplêndido passado pela frente?
Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um porto de partida.
Eduardo Galeano (trecho do livro As Palavras Andantes, tradução de Eric Nepomuceno, L&PM, 1994)
@kikodinucci / al.dotto # elenão / tenor.com / #EleNão

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Peixe

A máscara a que o título do disco alude, tão evidente nesta capa do designer gráfico norte-americano Cal Schenkel, pouco fez para ocultar a identidade de Don Van Vliet (1941-2010), mais conhecido por Captain Beefheart. As canções neste duplo álbum de 28 faixas produzido por Frank Zappa — velho amigo de escola de Beefheart, dedicam-se a temas como a pesca, minhocas, peixes em lagos, peixes dourados, lulas, cabeças de peixe que quebram janelas, bem como ao enigmático e sonhador "octapeixe" O tamanho do peixe. As mentiras que os pescadores contam. Fischen in Bayern (Pesca na Baviera), cartaz premiado da agência Heye & Partner GmbH  O pintor Hiroshige (1797-1858), mestre das estampas japonesas em bloco xilográfico Ukiyo-e, executou uma série de naturezas mortas com peixes. A representação estética de animais mortos sob a forma de naturezas mortas não tinha qualquer tradição no japão e devem certamente ter sido resultado de influências ocidentais. As traduções que surgiram na segunda metade do século 18 de manuais anatômicos e cirúrgicos, literatura sobre cartografia e técnicas de topografia e de enciclopédias botânicas e zoológicas, confrontaram os japoneses com uma abordagem totalmente nova  Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz: — Bom dia, meninos. Como está a água? Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta: — Água? Que diabos é isso? (David Foster Wallace).
Álbum Trout Mask Replica, Captain Beefheart & His Magic Band (Design © Cal Schenkel / Foto © Ed Caraeff / © Cal Schenkel/ Warner Bros.,1969 / Link Galerie RALF / Robbie Busch, Jonathan Kirby, Ed. Julius Wiedemann, Rock Covers, Taschen, 2014) / Cartaz Fischen in Bayern, Alemanha, 2004 (Agência Heye & Partner GmbH / © Oliver Diehr, diretor de arte e © Jan Okusluk, diretor de criação) / Hiroshige (Peixe com bambu. De uma série representando peixes, editada por Eijudõ, c.1830-1835, estampa a cores, formato õban. Na parte superior esquerda da folha está um poema de Suzugaki) / (Adele Schlombs, Hiroshige, tradução David Ançã, Editora Taschen, 2009)

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Antes e depois


Em seu livro The Art of Advertising, George Lois, ex-diretor de arte da Doyle Dane & Bernbach e da sua agência, a Papert Koenig Lois, apresenta alguns dos trabalhos mais emblemáticos dos anos 1960 e início dos 1970. O talento de Lois para estruturar uma ideia por meio de uma combinação de palavras e imagens é representado em sua campanha publicitária para a Coty: Before After satiriza o glamour instantâneo, mensagem tão comum nos anúncios de produtos de beleza. Antes que ele pudesse ir em frente com o fotógrafo Richard Avedon na versão para TV deste anúncio de revista, a comediante Alice Pearce morreu. Lois conta que, encontrar uma substituta para a bela modelo teria sido fácil, mas só havia uma Alice Pearce  Um exemplo dos efeitos da censura sobre a história em quadrinhos. O período de 1929-1945 caracteriza-se na Europa por um certo conservadorismo, reforçado pela invasão dos produtos americanos. Na Itália de Mussolini, a criação de algumas séries com argumentos da ideologia fascista, e a "italianização" dos quadrinhos americanos, oficialmente proibidos porque vinham de uma nação inimiga. Na França entre 1953-1969, campanhas contra a arte dos quadrinhos e contos em HQ, submetendo previamente à censura as histórias de Tarzan, ilustrado por Burne Hogarth  "... um artista pode moldar o barro inerte que tem sobre a tripeça de trabalho, e fazer dele, à vontade, uma vasilha ou um deus... tenho a impressão que o Brasil se decidiu pela vasilha." Eça de Queirós, inédito da Correspondência de Radique Mendes, 1888. "O Eça vislumbrava, e se arrepiava, com o abismo de ganância das sesmarias e dos latifúndios às fazendas multinacionais, sem jamais darmos terra aos que a cultivaram outrora, os que hoje a cultivam (...). Dos tempos em que o Brasil foi dividido em capitanias hereditárias até o dia de hoje, o princípio que tem norteado nossa política de ocupação da terra é o direito divino da propriedade (...). Nunca chegamos a nada que se parecesse com uma reforma agrária, isto é, uma distribuição democrática das terras agrícolas entre a massa dos lavradores do país, dos que realmente lavram o chão e não são filhos de algo, de alguém, fidalgos."
© George Lois (Campanha Coty Cremestick, Papert Koenig Lois, 1966. George Lois, Bill Pitts,The Art of Advertising: George Lois on Mass Communication, Harry N. Abrams, 1977. Link George Lois) / © Burne Hogarth (Tarzan, copyright U.F.S - U.P.I. Bande dessinée et figuration narrative, Musée des Arts Decoratifs, Louvre, 1967) / (Antonio Callado, Entre o deus e a vasilha: ensaio sobre a reforma agrária brasileira, a qual nunca foi feita, Nova Fronteira, 1985)