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terça-feira, 16 de outubro de 2018

Caubóis

Cartaz Peace is Tough, de Jamie Reid, encomendado pela Stop the War Coalition em 2003, em protesto contra a participação da Grã-Bretanha na guerra liderada pelos EUA no Iraque. O pôster mostra a "persona" heróica do ator John Wayne, o pistoleiro americano famoso por enfrentar os índios e poderosos fazendeiros, usando batom, um distintivo pacifista e o símbolo da paz em seu chapéu de caubói ● Em 1946, o artista belga Maurice de Bevère, mais conhecido pelo pseudônimo de Morris, criou as aventuras de Lucky Luke, um caubói simpático e desajeitado. Toda a história real e lendária da conquista do Oeste americano, com os seus fazendeiros, os seus barbeiros franceses, os seus donos de lavanderias chineses, os seus índios e foras-da-lei, tudo isso com muito humor, tanto no grafismo como na sátira dos costumes ● The Sheriff, primeira capa produzida pelo designer gráfico e ilustrador polonês Stanislaw Zagórski. "Produziu igualmente muitos pôsteres para filmes europeus nos anos 50 e 60, antes de se instalar em Nova York." Essas capas ilustradas englobam um capítulo significativo da história do design de capas de discos ● No início dos anos 80, as democracias populares criticam com vigor o regime soviético. Na Polônia, a contestação é promovida pelo sindicato Solidariedade (Solidarność) e por seu presidente, Lech Walesa. O cartaz que Tomasz Sarnecki criou para a primeira eleição legislativa na Polônia, era composto de uma foto do xerife Marshall Will Kane (interpretado por Gary Cooper no filme High Noon, 1952) e o logotipo do Solidariedade, desenvolvido pelo designer gráfico polonês Jerzy Janiszewski. Em 1990, Walesa é eleito o primeiro presidente anti-comunista da República da Polônia. No livro sobre história do século XX, Eric Hobsbawm afirma: "A não ser pela orientação socialista de um e a ideologia anti-socialista do outro, eram impressionantes as semelhanças entre o Partido dos Trabalhadores brasileiro e o movimento Solidariedade polonês contemporâneo: um líder proletário autêntico — um eletricista de estaleiro e um operário qualificado da indústria automobilística —, uma assessoria de alto nível de intelectuais e forte apoio da Igreja. São ainda maiores se nos lembrarmos que o PT buscava substituir a organização comunista que a ele se opunha."
© Jamie Reid, cartaz Peace is Tough, 2003, Victoria and Albert Museum (Link Stop the War Coalition) / © Morris, Lucky Luke na capa da revista Spirou, 28 de outubro de 1965 (La Bande Dessinée, Editions Seghers, 1978) / The Moodern Jazz Quartet, The Sheriff, design © Stanislaw Zagórski, 1964, Atlantic (Joaquim Paulo, Ed. Julius Wiedemann, Jazz covers, Taschen, 2012) / cartaz Eleição Legislativa na Polônia,1989, design © Tomasz Sarnecki, Autry Museum of the American West (Eric Godeau, Imagens que contam o mundo, tradução Maria da Anunciação Rodrigues, Edições SM, 2007) 

sábado, 13 de outubro de 2018

Índios


"Na origem de todos os relatos sobre o Brasil está a memória de um viajante alemão, Hans Staden, que narra sua estada entre os índios brasileiros. Tomado por português e inimigo, Stadem é preso pelos Tupinambás, ameaçado de morte e devoração canibal. A astúcia de Staden consiste em se colocar como instrumento da vontade divina e na sua capacidade de predizer fenômenos da natureza e, desse modo, simular controle sobre os índios." A narrativa de seu cativeiro junto aos índios Tupinambás, causou grande impacto desde a época de sua primeira publicação, em 1557. A reedição mais importante é a de Theodore De Bry, publicação ilustrada sob orientação de Staden, para tornar o relato verossímil  Extinção, editorial da revista Piseagrama: "Preocupado com o empobrecimento do solo pela devastação das florestas, estimadas em 1,5 milhões de quilômetros quadrados, e alarmado pela possibilidade de uma calamidade pública nacional com o esgotamento das matas, o Ministério da Agricultura lançou, em 1958, o Plano Nacional de Reflorestamento, convocando todo brasileiro a ser  'um amigo da pátria plantando árvores'. O Serviço de Proteção aos Índios (SPI), que em 1967 passaria a se chamar FUNAI, aderiu ao plano naquele mesmo ano, comprometendo-se a distribuir 50 mil mudas, principalmente de árvores frutíferas, entre os diversos Postos Indígenas Avançados pelo país. O objetivo, divulgava-se, era incentivar entre os indígenas o amor às árvores. As mudas, conseguidas nas próprias regiões, eram ensacadas ou plantadas em latas descartadas pelas frenéticas obras rodoviárias em curso e distribuídas nas aldeias. Passadas quase seis décadas, a fotografia da chegada das plantas aos Yawalapiti, tidos naquele momento como praticamente extintos, guarda a profecia das imagens xamânicas: enquanto os índios se multiplicam cultivando a floresta, apesar dos planos persistentes e sistemáticos para dizimá-los, os amigos da pátria derrubam árvores como nunca antes na história desse país"  O cartaz 30 Posters on environment and development - Eco 92, de Rafic Farah, "é uma colagem composta por um recorte da conhecida figura de um índio brasileiro com o arco retesado, feita por Rugendas no século XIX; no fundo, páginas justapostas de uma lista telefônica, sugerindo uma multidão indistinta de alvos potenciais da flecha prestes a ser lançada. O índio, habitante original das terras brasileiras, é visto assim como o defensor da natureza, em luta contra os inimigos dela, representados pela massa 'urbana e civilizada'."  "Deveríamos repensar toda a questão da cultura indígena e nossa relação com ela, como sugeria o antropólogo francês Pierre Clastres, que viveu entre várias etnias no Brasil. Ele lembrava que nós, 'civilizados', costumamo-nos referir a índios não pelo que eles têm, mas sim pelo que não têm — não usam roupas, não têm dinheiro, não dominam nossas tecnologias. Esquecemo-nos da força de culturas em que a sociedade não delega poder a ninguém (o chefe não manda, não dá ordens; é o que mais sabe dessa cultura, da divisão do trabalho; é o grande mediador de conflitos). Um índio na força de sua cultura também não depende de ninguém: sabe fazer tudo de que precisa — a casa, a roça, seus objetos do cotidiano. E a informação é aberta, o que um sabe todos podem saber; como todos são autossuficientes, ninguém domina ninguém. É o que Clastres chama de 'democracia do consenso'.
Uma boa lição para quem está vivendo, hoje, os dramas da relação da nossa sociedade com o poder." Washington Novaes
Detalhe da gravura Preparo da carne humana em episódio canibal, de Theodore De Bry (Ana Maria de Moraes Belluzzo, O Brasil dos viajantes, Objetiva, Metalivros, 1999) / Foto autor desconhecido, índia Yawalapiti, 1958. Na divulgação da capa, o Facebook bloqueou a página da revista, que retratava uma índia com seios nus (Extinção, PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 8, página 1, 2015 / Link Piseagrama/ © Rafic Farah, 30 Posters on environment and development - Eco Rio 92 (Chico Homem de Melo e Elaine Ramos, Linha do tempo do design gráfico no Brasil, Cosac Naify, 2011) / Washington Novaes, trecho de seu artigo Aprender com o índio, não tentar destruí-lo, O Estado de S. Paulo, 2016 / Cartaz Simpósio sobre Pierre Clastres, IMEC, 2017 / Foto © Claude Lévi-Strauss, índio Bororo (1935-1939). 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Ele não


Janela sobre a memória (II)
Um refúgio?
Uma barriga?
Um abrigo onde se esconder quando estiver se afogando na chuva, ou sendo quebrado pelo frio, ou sendo revirado pelo vento?
Temos um esplêndido passado pela frente?
Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um porto de partida.
Eduardo Galeano (trecho do livro As Palavras Andantes, tradução de Eric Nepomuceno, L&PM, 1994)
@kikodinucci / al.dotto # elenão / tenor.com / #EleNão

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Peixe

A máscara a que o título do disco alude, tão evidente nesta capa do designer gráfico norte-americano Cal Schenkel, pouco fez para ocultar a identidade de Don Van Vliet (1941-2010), mais conhecido por Captain Beefheart. As canções neste duplo álbum de 28 faixas produzido por Frank Zappa — velho amigo de escola de Beefheart, dedicam-se a temas como a pesca, minhocas, peixes em lagos, peixes dourados, lulas, cabeças de peixe que quebram janelas, bem como ao enigmático e sonhador "octapeixe" O tamanho do peixe. As mentiras que os pescadores contam. Fischen in Bayern (Pesca na Baviera), cartaz premiado da agência Heye & Partner GmbH  O pintor Hiroshige (1797-1858), mestre das estampas japonesas em bloco xilográfico Ukiyo-e, executou uma série de naturezas mortas com peixes. A representação estética de animais mortos sob a forma de naturezas mortas não tinha qualquer tradição no japão e devem certamente ter sido resultado de influências ocidentais. As traduções que surgiram na segunda metade do século 18 de manuais anatômicos e cirúrgicos, literatura sobre cartografia e técnicas de topografia e de enciclopédias botânicas e zoológicas, confrontaram os japoneses com uma abordagem totalmente nova  Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz: — Bom dia, meninos. Como está a água? Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta: — Água? Que diabos é isso? (David Foster Wallace).
Álbum Trout Mask Replica, Captain Beefheart & His Magic Band (Design © Cal Schenkel / Foto © Ed Caraeff / © Cal Schenkel/ Warner Bros.,1969 / Link Galerie RALF / Robbie Busch, Jonathan Kirby, Ed. Julius Wiedemann, Rock Covers, Taschen, 2014) / Cartaz Fischen in Bayern, Alemanha, 2004 (Agência Heye & Partner GmbH / © Oliver Diehr, diretor de arte e © Jan Okusluk, diretor de criação) / Hiroshige (Peixe com bambu. De uma série representando peixes, editada por Eijudõ, c.1830-1835, estampa a cores, formato õban. Na parte superior esquerda da folha está um poema de Suzugaki) / (Adele Schlombs, Hiroshige, tradução David Ançã, Editora Taschen, 2009)

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Antes e depois


Em seu livro The Art of Advertising, George Lois, ex-diretor de arte da Doyle Dane & Bernbach e da sua agência, a Papert Koenig Lois, apresenta alguns dos trabalhos mais emblemáticos dos anos 1960 e início dos 1970. O talento de Lois para estruturar uma ideia por meio de uma combinação de palavras e imagens é representado em sua campanha publicitária para a Coty: Before After satiriza o glamour instantâneo, mensagem tão comum nos anúncios de produtos de beleza. Antes que ele pudesse ir em frente com o fotógrafo Richard Avedon na versão para TV deste anúncio de revista, a comediante Alice Pearce morreu. Lois conta que, encontrar uma substituta para a bela modelo teria sido fácil, mas só havia uma Alice Pearce  Um exemplo dos efeitos da censura sobre a história em quadrinhos. O período de 1929-1945 caracteriza-se na Europa por um certo conservadorismo, reforçado pela invasão dos produtos americanos. Na Itália de Mussolini, a criação de algumas séries com argumentos da ideologia fascista, e a "italianização" dos quadrinhos americanos, oficialmente proibidos porque vinham de uma nação inimiga. Na França entre 1953-1969, campanhas contra a arte dos quadrinhos e contos em HQ, submetendo previamente à censura as histórias de Tarzan, ilustrado por Burne Hogarth  "... um artista pode moldar o barro inerte que tem sobre a tripeça de trabalho, e fazer dele, à vontade, uma vasilha ou um deus... tenho a impressão que o Brasil se decidiu pela vasilha." Eça de Queirós, inédito da Correspondência de Radique Mendes, 1888. "O Eça vislumbrava, e se arrepiava, com o abismo de ganância das sesmarias e dos latifúndios às fazendas multinacionais, sem jamais darmos terra aos que a cultivaram outrora, os que hoje a cultivam (...). Dos tempos em que o Brasil foi dividido em capitanias hereditárias até o dia de hoje, o princípio que tem norteado nossa política de ocupação da terra é o direito divino da propriedade (...). Nunca chegamos a nada que se parecesse com uma reforma agrária, isto é, uma distribuição democrática das terras agrícolas entre a massa dos lavradores do país, dos que realmente lavram o chão e não são filhos de algo, de alguém, fidalgos."
© George Lois (Campanha Coty Cremestick, Papert Koenig Lois, 1966. George Lois, Bill Pitts,The Art of Advertising: George Lois on Mass Communication, Harry N. Abrams, 1977. Link George Lois) / © Burne Hogarth (Tarzan, copyright U.F.S - U.P.I. Bande dessinée et figuration narrative, Musée des Arts Decoratifs, Louvre, 1967) / (Antonio Callado, Entre o deus e a vasilha: ensaio sobre a reforma agrária brasileira, a qual nunca foi feita, Nova Fronteira, 1985)

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Planetas


Estamos num planeta que gira em torno de uma estrela. O universo observável contém cem bilhões de galáxias. Cada uma compreende cem bilhões de estrelas e galáxias anãs que poderiam também conter tantas estrelas quanto as galáxias que brilham. Como observam Silk e Barrow, "se o universo foi concebido para que existíssemos, por que preocupar-se com os bilhões de outras galáxias completamente supérfluas?" Enviaram-se sondas espaciais com mensagens para outros seres vivos, caso existissem, e fica-se à escuta, em vários lugares, para tentar captar mensagens que nos seriam endereçadas. Até agora, sem resultado. Mas, por incrível que pareça, não ter uma página no Facebook, há o perigo de atribuir-lhe uma qualidade alienígena, um ser de outro planeta. Aliás, por que não seria você convencido pelos argumentos bastante lógicos que os outros lhe opõem?  The Planets (1914-1917), do compositor inglês Gustav Holst (1874-1934), é uma suíte sinfônica articulada em sete partes, cada uma das quais corresponde a um planeta. A obra começa com Marte, o portador da guerra. A seguir, Vênus, a portadora da paz. Mercúrio, o mensageiro alado é um scherzo rápido, enquanto Júpiter, o portador da alegria, um dos movimentos mais conhecidos da suíte, é regido por um clima otimista. Saturno, o portador da velhice, uma peça misteriosa e amarga. O humor volta com outro scherzo, intitulado Urano, o mago. Holst optou por concluí-la com Netuno, o místico, para ilustrar a imensidão do universo  Em 1932, no mesmo ano em que Man Ray (1890-1976) participa na Exposição Surrealista Internacional na Julien Levy Gallery, em Nova York, com Dalí, Ernst, Picasso e Pierre Roy, ele foi contratado por Frank Pick, o diretor de design do Metrô de Londres, para criar uma série de cartazes publicitários. Keeps London Going, cartaz deliciosamente futurista de Man Ray, apresenta uma analogia visual entre o logotipo do metrô, o "Bullseye", desenhado por Edward Johnston, e o planeta Saturno. Embora tenha atuado em vários campos, Man Ray tornou-se famoso principalmente como fotógrafo  A Fiction House era uma dessas editoras de pulp — da década de 1920 ao início da década de 1950. Com títulos como Planet Stories, Wings, Fight Stories e Jungle Stories, revistas de aventuras interplanetárias — e uma coleção memorável de capas —, ilustrações de monstros de pesadelo remanescentes dos cartazes dos filmes B das décadas de 1930 e 1940 ● Foto de Plutão feita pela sonda espacial New Horizons, da Nasa. Para o biólogo Henri Laborit (1914-1995), no fundo, não se deve ter inveja dos místicos, que dão a impressão de ter encontrado o grande todo e de ter-se liberado de uma vez por todas de nossas partículas, seja qual for a forma, galáctica ou humana, na qual elas se associem. Sabemos que essas partículas são apenas modelos explicativos de nosso mundo, nada além disso. Mas o que resta procurar, para um místico, já que ele achou? Já que ele não pode mais falar, sentir, imaginar. Já que ele não sabe mais o que é a angústia.
(Henri Laborit, Deus não joga dados, tradução Maria da Silva Cravo,Trajetória Cultural, 1988) / Capa de disco The Planets, Gustav Holst (Deutsche Grammophon Collection, Ediciones Altaya, 2000) / © Man Ray (cartaz Keeps London Going, London Transport, 1932. The Museum of Modern Art, Nova York. Man Ray, Taschen, 1993)  / Planet Stories (capa © Allen Gustav Anderson, editor Thurman T. Scott, edição de julho de 1952) / Nasa (foto de Plutão, 2015)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Diabruras


O diretor dinamarquês Benjamin Christensen (1879-1959) explorou o sobrenatural na sua obra-prima: Häxan - A feitiçaria através dos tempos (1922), cujo elenco reunia excelentes atores e figurantes retirados de um hospital, com sua mistura surreal de documentário e sequências ficcionais, muitas vezes imbuídas do espírito de Hieronymus Bosch ou Francisco de Goya. "O filme era um ataque visceral contra o fanatismo religioso, embora também encontrasse espaço para um humor sarcástico — especialmente quando o próprio diretor surge como Satanás, interpretando o papel nu em pelo." Häxan foi banido dos Estados Unidos e de outros países por suas cenas de tortura e nudez  Em 1916, o escritor austríaco Walter Serner (1889-1942) passou a integrar o círculo Dadá, e editou uma revista correspondente, a Sirius. Serner, um niilista declarado, sofria de nojo pela humanidade porque descobrira o que Brecht anunciou a vida inteira, ou seja, que o ser humano é fraco demais para ser realmente bom, e bom demais para ser mau. "O cidadão burguês via no dadaísta um sujeito maléfico, um malfeitor revolucionário que estava de olho nos seus sinos, nas suas caixas-fortes e nas suas honrarias. O dadaísta inventava travessuras para perturbar o sono do burguês. Ele mandava notícias falsas aos jornais e fazia com que o burguês ficasse confuso e sentisse um longínquo porém violento estremecimento, de maneira que seus sinos começavam a tilintar, suas caixas-fortes enrugavam as testas e suas honrarias começavam a apresentar manchas"  Cartaz criado pelo artista gráfico e ilustrador polonês Roman Cieślewicz (1930-1996), para a ópera Os Diabos de Loudun (1969), do premiado compositor polonês Krzysztof Penderecki. Baseada no livro de 1952, de Aldous Huxley, esta obra quase se tornou um clássico da ópera, graças ao disco e à popularidade suspeita do tema. Desde que Huxley contou essa história verídica de freiras histéricas, com fundo de erotismo, tortura e sobrenatural, o público não se cansa dessa interpretação. Penderecki escreve uma música sensual, cujo sucesso contribuiu para transformar as relações entre o grande público e a música de vanguarda  A arte de Sean Madden, por motivos emocionais, estéticos, mescla influências do surrealismo, de Salvador Dali e Ernst Fuchs, até a psicodelia e quadrinhos underground. Mas cada apropriação de um estilo, é desviada para construção de sua práxis artística, a "Psychotic Reaction". O antigo tema do Papa no inferno foi estudado pelo historiador da arte E. H. Gombrich (magia, mito e metáfora). A primeira campanha de sátira pictórica com organização sistemática — a de Martinho Lutero, contava com o apoio de uma famosa série de xilogravuras, em que o diabo ou demônios são frequentemente mostrados em diversas imagens, como ao atirar o Papa para o inferno. O diabo faz parte do mito, isto é, do sistema de crenças compartilhadas que mantém uma sociedade unida. Poucos de nós ainda pensa assim; no entanto, o diabo continua vivo em nosso discurso, nas metáforas que usamos em expressões de desaprovação, ou até mesmo em expressões de carinho, como quando uma criança travessa é descrita como um diabinho  "Um velho rabino na Polônia ou adjacências estava andando numa tempestade de uma aldeia para outra. Não tinha muita saúde. Era cego, coberto de chagas. Tropeçando em alguma coisa, caiu na lama. Levantando-se com dificuldade, ergueu as mãos para o céu e gritou: Louvor a Deus! O demônio está na Terra e fazendo seu trabalho maravilhosamente!" (John Cage). 
Cartaz do filme Häxan (autor desconhecido, 1922) / Francis Picabia (capa revista Dadá, Zurique, 1919 / Hans Richter, Dadá: arte e antiarte, tradução Marion Fleischer, Martins Fontes, 1993) / © Roman Cieślewicz (cartaz Diably z Loudun, 1969 / Roland de Candé, História universal da música, tradução Eduardo Brandão, Martins Fontes, 1994) / The Assassination of the Pope / Cortesia de © Sean Madden. Link Sean Madden Art (E. H. Gombrich, Os usos das imagens: estudos sobre a função social da arte e da comunicação visual, tradução Ana Freire de Azevedo e Alexandre Salvaterra, Bookman, 2012)

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Onomatopeia


Top!Top!Top! A onomatopeia mais usada pelo criador dos Fradinhos (Comprido e Baixim), o cartunista, quadrinista, jornalista e escritor Henfil (Henrique de Souza Filho, 1944-1988), publicada em O Pasquim, em 1969, do qual ele foi um dos fundadores. Em 1964, começou a fazer cartum na revista Alterosa, em Belo Horizonte. A partir de 1970, produziu cartuns políticos para o Jornal do Brasil, onde lançou os personagens Zeferino, Graúna e Bode Orelana no Caderno B. No final de 1973 muda-se para Nova York e através do Universal Press Syndicate distribui os quadrinhos Little Monks (Fradinhos) em dez jornais americanos e um canadense. Volta para o Brasil em 1975. Seus cartuns e charges apresentam um retrato crítico da realidade política e social brasileira dos anos 1970 e 1980. O seu traço original permanece tão vivo, que faz a obra de Henfil parecer tão curiosamente atual. Entre as onomatopeias criadas por Henfil estão Cusp! (cuspe) Arout! (arroto) e Xuipt! (beijo)  No livro Shazam!Álvaro de Moya, o maior especialista em história em quadrinhos do Brasil, desenvolve sua análise das onomatopeias — razão e representação: "A história em quadrinhos — falante desde o início, muito antes do cinema já possuía trilha sonora, com balões (diálogos) — vai buscar na trilha sonora cinematográfica mais um elemento que possa dar uma maior movimentação, exprimindo sons e ruídos que não podiam figurar nos diálogos (balões). E tal influência da onomatopeia, longe de extinguir-se, aumenta continuamente. Em cada dez onomatopeias e signos gráficos criados pelas histórias em quadrinhos, pelo menos cinco desfrutam do uso corrente na publicidade e duas na linguagem coloquial"  As formas em cores uniformes e as letras sem serifa, efeito explorado durante muitos anos por Félix Beltrán, um importante designer gráfico e ilustrador cubano que trabalhara em publicidade nos Estados Unidos. O cartaz "Clik. Ahorro de electricidad es ahorro de petroleo" (Poupar energia é poupar petróleo), faz parte de uma campanha encomendada pelo estúdio governamental Intercomunicaciones para promover a conscientização do uso dos recursos energéticos na ilha de Fidel. Na década de 1960, a simplicidade técnica desses cartazes advinha de necessidades econômicas. Beltrán estudou na New School for Social Research e no Graphic Art Center do Pratt Institute, em Nova York. Desde 1982 leciona na Universidad Autónoma Metropolitana do México e professor convidado da Escuela de Diseño de Altos del Chavón da República Dominicana  O quadro Takka Takka de Roy Lichtenstein (1923-1997) proporciona um conhecimento do papel que as imagens desempenharam e que continuarão a desempenhar na guerra. O artista limita-se a mostrar as armas no momento em que cumprem o seu propósito, como que automaticamente e somente porque foi para isso que foram construídas em grande quantidade. Nem o atirador nem a sua potencial vítima estão visíveis, nem nunca apareceram. Devido à atitude de protesto generalizado que dominou os anos 60, alguns críticos concluíram que a história em quadrinhos de guerra podia significar uma afirmação de pacifismo. Entretanto, Lichtenstein não pintou para melhorar a humanidade: "A minha opinião pessoal é que muito da nossa política tem sido inacreditavelmente aterradora, mas este não é o tema do meu trabalho e eu não quero tirar dividendos desta posição popular. Minha obra diz mais respeito à nossa definição americana das imagens e da comunicação visual." 
© Henfil / Fradim Baixim / Cortesia de Ivan Cosenza de Souza. Link Instituto Henfil / Cartaz Batman / Nonsense! There are no such things as - UHH! / Autor desconhecido, 1966 (Álvaro de Moya, Shazam!, Editora Perspectiva, 1977) / © Félix Beltrán (cartaz Clik, serigrafia, c. 1969 / Richard Hollis, Design gráfico: uma história concisa, tradução Carlos Daudt, Martins Fontes, 2000) / © Roy Lichtenstein (Takka Takka, magna sobre tela, 1962, Museum Ludwig, Colônia / Jamis Hendrickson, Roy Lichtenstein, tradução Zita Morais, Taschen, 1996 / Klaus Honnef, Pop art, tradução Constança Paiva Boléo, Taschen, 2004)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Olimpíadas


Herdeiros de uma arte com fortes raízes populares e de uma técnica de produção de desenhos em xilogravuras — com a extraordinária escola criada por José Guadalupe Posada (1852-1913), e um estilo original de design gráfico com a Editora Era, fundada em 1960, o logotipo para os Jogos Olímpicos do México 1968, o único exemplo de alcance internacional no campo de design gráfico, foi desenvolvido por um norte-americano — Lance Wyman. O designer projetou o logo com formas geométricas reduzidas para simular movimento, um estilo de grafismo conhecido como op art ● O designer alemão Otl Aicher (1922-1991) foi professor, co-reitor e reitor da Escola de Ulm, que ajudou a fundar, entre 1954 e 1966. Apesar de Aicher ter trabalhado como designer de identidade corporativa, é mais conhecido pelo programa de identidade visual das Olimpíadas de Munique 1972. A equipe de Aicher criou uma linguagem que orientava os visitantes pela cor e um sistema de pictogramas que é conhecido e usado até hoje. A Alemanha foi o primeiro país a não usar cores nacionais em uma olimpíada ● O fotógrafo alemão Marc Ohrem-Leclef percorreu 13 comunidades da cidade do Rio de Janeiro afetadas pela remoção em função da Copa do Mundo 2014 e para os Jogos Olímpicos de 2016, megaeventos organizados por entidades de cunho privado, mas financiados por verbas públicas. Ohrem-Leclef faz um exame de cada comunidade na qual a política implementada pelo governo está trazendo mudanças, e, tendem para impor às suas obras a expulsão dos pobres das áreas valorizadas. No livro Olympic Favela, projeto iniciado em 2012, suas fotografias demonstram preocupação direta com os moradores das comunidades carentes, retratados na frente de suas casas marcadas com a sigla SMH (Secretaria Municipal de Habitação) nas ações de despejo forçado, e erguendo tochas de emergência, um gesto como símbolo de resistência e libertação. Ao compartilhar o livro com os moradores, o fotógrafo sensibilizou-se com as mensagens de boa sorte, e ainda, sobretudo, com o sentimento de otimismo. Olympic Favela foi selecionado como um dos melhores livros de 2014 pela revista American Photo, e foi destaque na ARTnews, Daily Mail, WDR, Der Spiegel, CBC, entre outras publicações internacionais  Por ocasião dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, o designer gráfico e tipógrafo inglês Jonathan Barnbrook criou uma série de pictogramas, fontes e cartazes. O projeto Olympukes 2012 é uma leitura alternativa e espirituosa, mas com base em uma cuidadosa pesquisa dos principais acontecimentos políticos, econômicos, sociais e culturais, e a polêmica em torno dos jogos olímpicos atuais: gastos excessivos com tecnologia e medidas de segurança, violação dos direitos humanos, favorecimento explícito, influência política e ganância inescrupulosa.
© Lance Wyman (logotipo dos Jogos Olímpicos do México 1968) / © Otl Aicher (cartaz Olimpíadas de Munique 1972. Alexandre Wollner e a formação do design moderno no Brasil: depoimento sobre o design visual brasileiro / Um projeto de André Stolarski, Cosac Naif, 2005) / Olympic Favela / Cortesia de © Marc Ohrem-Leclef (Editora Damiani, 2014. Link Marc Ohrem-Leclef) / © Jonathan Barnbrook (cartaz Olympukes 2012. Link Virus fonts)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Correspondência


"Escrever, para quem? a. Para os contemporâneos (cartas e publicações) b. Para a posteridade (relevos egípcios e testamentos) c. Para si mesmo (rabiscos infantis, diários e cadernos de apontamentos)." Nota de Gauguin sobre o intercâmbio de quadros com Van Gogh  Carta de Saul Bass (1920-1996) a Stanley Kubrick (1928-1999) apresentando cinco novos projetos de cartazes para o filme O iluminado (1980). Na década de 50, Bass criou aberturas de filme e cartazes de grande efeito visual usando recortes de papel para dois longas-metragens de Otto Preminger, The Man with the Golden Arm (1955) e Anatomy of a Murder (1959). Bass desenvolveu uma linguagem simplificada e simbólica do design, que tentava exprimir as qualidades essenciais dos filmes  Nos anos 1990, o FBI (Federal Bureau of Investigation) usou um software digital chamado Carnivore para vigiar o tráfego da internet. Esta tecnologia orwelliana deu a possibilidade aos agentes de ler mensagens de correio eletrônico dos cidadãos comuns. Como resposta a esta forma de vigilância, uma equipe de artistas chamada RSG, Radical Software Group, desenvolveu CarnivorePE (PE significa Personal Edition). O CarnivorePE funciona como uma plataforma ou uma ferramenta para os artistas de New Media Art. Onde o FBI usa o seu software para vigiar os suspeitos, o RSG transforma a atividade encoberta da vigilância em expressão artística  Carta ao vento, xilogravura de Torii Kiyohiro, período Edo (1615-1868). O haiku, pequeno poema em torno da figura e a caligrafia concebida em ritmos rápidos, obedeciam aos estilos dominantes da época. Gravuras como esta, revelando partes normalmente encobertas do corpo feminino, técnica conhecida como abunae (imagens "perigosas") eram populares no Japão no século 18  Zuzu Angel (Zuleika Angel Jones, 1921-1976), estilista cujo filho foi preso, torturado e morto por membros do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa) em 1971, e que deixava na casa do compositor Chico Buarque bilhetes relatando sua história. No último deles, em 1975, alertava para a possibilidade de ser morta pelos mesmos assassinos de seu filho, Stuart Edgart Angel Jones. Zuzu foi silenciada em um suposto acidente de carro. Em 1998, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos julgou o caso e reconheceu o governo militar como o responsável pela morte da estilista. Angélica (1977), de Chico Buarque e Miltinho, canção composta para Zuzu Angel: Quem é essa mulher / Que canta como dobra um sino? / Queria cantar por meu menino / Que ele já não pode mais cantar.
(Catálogo da exposição A arte da escrita, Unesco, 1965) / © Saul Bass (Stanley Kubrick / LACMA / Charlote e Peter Fiell, Design do século XX, Taschen, 2000) / © RSG ( Amalgamatmosphere, 2001, cliente da CarnivorePE por Joshua Davis, Branden Hall e Shapeshifter / Mark Tribe e Reena Jana, New media art, Taschen, 2010. Link RSG) / Torii Kiyohiro (Carta ao vento, xilogravura policromada, tinta e cor sobre papel, c. 1751-1764, British Museum) / Zuzu Angel (Reprodução / Chico Buarque: O tempo e o artista, Regina Zappa, Biblioteca Nacional, 2004)