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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Detetives


Capa de Line-up detective crime (1951), de George Gross (1909-2003), um dos  ilustradores de pulp fiction da época, com suas personagens sedutoras, vilanescas e letais. Publicadas nos Estados Unidos entre os anos 1924 e 1969, as revistas pulp cobriam uma gama de gêneros - terror, mistério, aventura e policial - histórias de crimes reais contendo sexo, violência, sangue e mutilação, fizeram grande sucesso durante o período de guerra. O país era fascinado pelos fora da lei. As revistas sumiam das bancas a cada edição  Cartaz do artista gráfico e cenógrafo alemão Josef Fenneker (1895-1956) para o filme Der unsichbare Dieb (O ladrão invisível, 1920), de Gernot Bock-Stieber. Desde a proclamação da chamada Lei Cinematográfica do Reich em 1920, que justificava uma censura cinematográfica, todos os desenhos de cartazes tinham de ser aprovados pelos serviços de controle em Berlim ou em Munique. Fenneker desenhou os seus primeiros cartazes, principalmente os expressionistas, para os palácios cinematográficos frequentados pela classe média, como a famosa sala Marmorhaus, onde estreou O gabinete do doutor Caligari (1920), de Robert Wiene. Siegbert Goldchmidt, diretor da Marmorhaus, escrevia sempre o seu nome nos cartazes, mesmo quando o realizador ou os atores não eram mencionados. O sociólogo e crítico cultural Siegfried Kracauer (1889-1966) viu Hitler no Dr. Caligari. "Em filme após filme ele viu a sombra do que estava para vir - e do que tinha vindo na época em que completara suas investigações."  Ilustração da série The Spirit (1940), do desenhista norte-americano Will Eisner (1917-2005). Denny Colt é um personagem totalmente humano, um herói sem poderes especiais, um detetive falível o bastante para cometer erros e levar uns sopapos quando estivesse na ativa. The Spirit foi uma revolução: a escrita inovadora de Eisner, os planos cinematográficos, a influência do expressionismo alemão e as singulares splash pages (página de abertura da história). Eisner desenhou até morrer, aos 87 anos. "O mais significativo é que a obra de Eisner continuou a ser publicada. Numa ironia da qual ele teria gostado, sua última aventura com Spirit, o último trabalho que ele havia entregado antes de ir para o hospital, foi publicada na série em quadrinhos de Michael Chabon, O escapista"  Em 1973, Robert Altman (1925-2006) foi convidado para direção de The Long Goodbye, baseado no clássico de Raymond Chandler (1888-1959), mais um episódio na saga do detetive Philip Marlowe. A recusa foi enfática: um filme noir dos anos 40 não estava em seus planos. O projeto anterior mais conhecido foi The Big Sleep (1946), dirigido por Howard Hawks e protagonizado por Humphrey Bogart. Apenas quando a United Artists mencionou o nome de Elliot Gould para o papel de Philip Marlowe, e lendo o roteiro de Leigh Brackett, que mudava, e muito, o final do livro, Altman topou na hora. Colocou em seu contrato uma cláusula inédita que impedia o estúdio de modificar o final do filme em qualquer etapa da produção. Em The Long Goodbye (1973) a câmera nunca para de se mover e sempre aleatoriamente, não que haja algo proibido sendo mostrado, apenas o espectador é que não deveria estar lá.
© George Gross (capa Line-up detective crime, 1951) / © Josef Fenneker (cartaz Der unsichtbare Dieb, 1920 / catálogo Filmplakate aus der Weimarer Republic, Goethe-Institut, 1986 / Leif Furhammar e Folke Isaksson, Cinema e política, tradução Júlio Cezar Montenegro, Editora Paz e Terra, 1976. Reprodução / link Flickr) / © Will Eisner (splash page de The Spirit de 30 de novembro de 1947. © Will Eisner Studios Inc. / Denis Kitchen Art Agency. Reprodução, cortesia de Carl M. Gropper. Link Will Eisner / Michael Schumacher, Will Eisner: um sonhador nos quadrinhos, tradução Érico Assis, Editora Globo, 2013 / Eisner e a vida, sua arquiinimiga, por Carlos Haag, revista Bravo, 2006) / Cartaz The Long Goodbye, 1973 / Reprodução Robert Altman Gallery (catálogo da mostra As muitas vidas de Robert Altman, curadoria de Angelo Defanti, Centro Cultural Banco do Brasil, 2008) 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Papai Noel


Um confronto inusitado e divertido entre Papai Noel e Batman, história em quadrinhos criada pela roterista Céline Fraipont e o desenhista Pierre Bailly, para a edição especial de natal da revista francesa Spirou, editada por Charles Dupuis. O embate entre o bem e o mal é aqui, no entanto, contra forças da própria vida: um Papai Noel tatuado e de aspecto cansado recebe a visita de um Batman deprimido. Nas histórias em quadrinhos, encontrar um argumento é simplesmente lançar um olhar aos problemas humanos  Capa da revista Esquire (edição de dezembro de 1963), o pugilista norte-americano Sonny Liston (1932-1970) ex-campeão mundial dos pesos pesados. Na publicidade e editorial deste período, os negros eram frequentemente retratados em cenários relacionados à história do racismo e escravidão. A publicação da fotografia de um "bad-man" como "bom velhinho" desafiou tradições culturais. Foi um escândalo, algo jamais imaginado no país mais "adiantado" do mundo Publicidade da Coca-cola, ilustração por Haddon Sundblom (1899-1976). Cuba é a sociedade mais igualitária em toda a América Latina, aquela na qual é menor a diferença entre os que têm mais e os que têm menos. E entretanto, o ideal igualitário é incompatível com o libertário. "Pode haver uma sociedade de homens livres e uma de homens iguais, mas não pode haver uma que ligue intimamente ambos os ideais em doses idênticas. Esta é uma realidade que se custa aceitar, porque se trata de uma realidade trágica, que desmistifica uma tradição de utopias liberais na qual ainda nos movemos." Cuba optou pelo ideal igualitário, apesar disso, milhares de cubanos estariam dispostos a qualquer coisa para fugir para países da desigualdade Antônio Gabriel Nássara (1910-1996), caricaturista, desenhista e compositor, aos 16 anos assistiu a um pega da polícia no largo da Carioca, cavalaria em cima do povo. Fez então o retrato falado do tenente que comandou o pelotão, publicado no jornal O Globo, em 1927. Daí em diante não deixaria mais a vida da imprensa. "Nássara produz o riso desconcertante com uma economia de desenho", escreveu o crítico de arte Paulo Herkenhoff: "A cor frequentemente introduz uma nota de ironia dramática aos seus temas, como o vermelho neste Papai Noel trucidado, esquartejado. Ao escrever "Welcome ao Cantagalo", Nássara aponta para um processo de globalização dos símbolos, da língua e da própria violência."
© Céline Fraipont e © Pierre Bailly (Un bras de fer avec le Père Noël, Spirou # 3895, 2012. Reprodução Actua BD) / Esquire (Sonny Liston, dezembro de 1963, Diretor de arte George Lois, fotografia Carl Fischer) / Haddon Sundblom (Coca-cola Company, 1952 / Mario Vargas Llosa, Contra vento e maré, tradução Carlos Jorge Rio Branco Bailly, Francisco Alves Editora, 1985) / © Nássara (Natal em Cantagalo, técnica mista, s/d / Francisco de Assis Barbosa, Nássara desenhista, Cássio Loredano, Funarte, 1985 / Paulo Herkenhoff, Biblioteca Nacional, A história de uma coleção, Editora Salamandra, 1996)

sábado, 7 de dezembro de 2013

Saudade

© Goebel Weyne (12 de novembro de 1933 - 7 de dezembro de 2012 / Fotografias: Nara Leão, Show Opinião, Rio de Janeiro, 1965 / Mãe, Rio de Janeiro, 1964 / Clementina de Jesus, Rio de Janeiro, 1964 / Arquivo da família Weyne. Todos os direitos reservados)

domingo, 1 de dezembro de 2013

Anjos e demônios


"1984" álbum da banda de hard rock Van Halen, projeto gráfico de Pete Angelus e Richard Seireeni, diretor de criação da Warner Bros Records, e ilustração por Margo Z. Nahas. David Lee Roth e Eddie Van Halen tinham insistido na ideia de usar na capa do novo disco uma ilustração de quatro mulheres dançando. A artista plástica achou que isso seria muito complicado e recusou o trabalho. Contudo, ao se deparar com uma pintura com a técnica de aerografia de seu portfolio todos gostaram da imagem, compreendendo afinal o conceito do anjo imperfeito de Nahas. O álbum vendeu 10 milhões de cópias Cartaz por Jan Lenica (1928-2001), pintor e artista gráfico polonês, para a ópera Fausto do compositor  Charles Gounod (1818-1893), inspirada no poema de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Fausto é uma obra-prima da literatura alemã e um clássico do cinema mudo (1926), do diretor F. W. Murnau (1888-1931), que transmite uma impressionante narrativa visual do anjo que aposta com Mefistófeles pela alma do protagonista. Uma história de amor complicada pelo diabo Capa de disco do compositor de blues Robert Johnson (1911-1938), nascido em Hazlehurst, Mississippi, o famoso Delta do algodão, com uma população afro-americana numerosa e isolada. Johnson conhecia bem as melodias e as estrofes improvisadas nas fazendas ou nos campos de prisioneiros espalhados ao longo das estradas enlamaçadas do Mississippi. A sua singular forma de tocar o violão, e dizia-se que ele podia ouvir uma música apenas uma vez e ser capaz de reproduzi-la, alimentaram a lenda de que Johnson tinha vendido sua alma ao diabo numa encruzilhada. Em 13 de agosto de 1938, um rival ciumento lhe serviu uísque com estricnina. Johnson sobreviveu ao envenenamento, mas contraiu pneumonia e morreu três dias depois. Tinha 27 anos, e a sua figura convertera-se num mito do blues  Pecora asbestos furnace cement, um desses casos clássicos em que a imagem impressa na embalagem passa a designar o produto. "Diabo vermelho", como passou a ser conhecido, indica o atributo do cimento por transferência ou comunicação por associação: suportar altas temperaturas Na religião cristã, o demônio é um anjo mau. "Na filosofia grega, gênio (espírito) bom ou mau, inferior a um deus, mas superior ao homem: o demônio de Sócrates era um gênio que lhe inspirava e dava conselhos." O historiador Luis da Camara Cascudo (1898-1986), em seu Dicionário do folclore brasileiro, faz a seguinte observação: "Como não me foi possível compreender um demônio entre os indígenas ou negros escravos, creio que negros e ameríndios ajudaram ao satanás dos brancos, ampliando-lhe domínio e formas sem que lhe dessem nascimento." Os anjos aparecem de variadas maneiras nos papéis de mensageiros, guerreiros e, no pensamento mais recente, guardiães ou protetores. No livro A incrível e triste história de Cândida Erêndira e da sua avó desalmada, o realismo fantástico de Gabriel García Márquez, a história do anjo que pousa numa aldeia da Colômbia e os pescadores o trancam no galinheiro.
Van Halen (capa 1984, Warner Bros Records / Link Margo Z. Nahas) / © Jan Lenica ( cartaz Fausto, 1964) / Robert Johnson ( King of the Delta Blues, 1997. Link Robert Johnson Blues Foundation) / Embalagem Pecora asbestos furnace cement / (Hilton Japiassú, Danilo Marcondes, Dicionário básico de Filosofia, Jorge Zahar Ed., 2008)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Amarrados


Amarrada até o pescoço. A propaganda para as lãs Pingouin, criada em 1965, é uma lembrança do tempo em que as mulheres ainda tinham tempo para trabalhos com a agulha. Por incorporar ideias de atar e desatar, capturar e soltar, o simbolismo do nó é muito complexo. O nó górdio, por exemplo, ao cortá-lo, Alexandre, o Grande, encontrou uma solução de curto prazo, mas nunca completou a conquista da Ásia prevista para o homem que conseguisse desatá-lo. A lição moral que o budismo retirou desse incidente foi de que é a paciência, não a violência, que desembaraça os nós Cartaz projetado pela agência de publicidade Wien Nord para o This Human World, festival de cinema da Áustria, evento dedicado exclusivamente a filmes nacionais e internacionais sobre direitos humanos, em parceria com o Ludwing Boltzmann Institute of Human Rights. Composto de duas peças, cartaz e lacre de plástico, esse pôster foi amarrado nas grades e estruturas de ferro nas calçadas – a superfície não-oficial para fixação de cartazes na cidade de Viena  "Business as Usual", obra iconográfica de Lou Brooks. Ilustrador e designer gráfico, sua arte em quadrinhos foi publicada durante dez anos na Playboy, que alcançou o status de cult. Brooks teve também uma grande atuação na criação de capas para as revistas Time e Newsweek. Entre seus projetos mais conhecidos estão o logo para o Jogo Monopólio, redesenhado em 1985, os livros Skate Crazy: Graphics from the Golden Age of Roller Skating (Running Press), Twimericks: The Book of Tongue-Twisting Limericks (Workman Publishing) e o Museum of Forgotten Art Supplies, que reúne mais de 500 imagens de artefatos das artes. Uma coleção capaz de embasar discussões entusiasmadas, já que, com tanta tecnologia disponível, alguns objetos não são mais fabricados, outros foram caindo em desuso. Imaginemos por um instante, um mundo sem lápis com uma borracha macia na ponta  It Was Once a Paradise, livro de fotografias por Nobuyoshi Araki, conhecido internacionalmente pelo conteúdo erótico de suas imagens – mulheres amarradas por cordas (kinbaku), nuas ou trajando um quimono de seda. As modelos, às vezes, estão acompanhadas de miniaturas de dinossauros e répteis da coleção do fotógrafo. Araki começou a trabalhar na década de 1960 fotografando o submundo urbano de Tóquio. Seu trabalho ganhou notoriedade a partir de 2005 e da primeira mostra em Londres, na Barbican Art Gallery. Sexo e morte são temas constantes na obra de Nobuyoshi Araki – até mesmo quando fotografa flores. 
Anúncio Lãs Pingouin (Francisco Gracioso e J. Roberto Whitaker Penteado, Propaganda Brasileira, Mauro Ivan Marketing Editorial, 2004 / Jack Tresidder, O grande livro dos símbolos, tradução Ricardo Inojosa, Ediouro,2003) / Wien Nord (cartaz Tied up, This Human World, Viena, 2009. Design © Eduard Böhler e © Edmund Hochleiter. Fotografia © Gregor Ecker. Links Wien Nord / This Human World) / © Lou Brooks ("Business as Usual", díptico, acrílico sobre tela 24"W x 36"H. Coleção particular. Reprodução gentilmente cedida pelo artista. Todos os direitos reservados. Link Lou Brooks) / © Nobuyoshi Araki (capa It Was Once a Paradise, Reflex, 2011. Link Nobuyoshi Araki / Juliet Hacking,Tudo sobre fotografia, tradução Fabiano Morais, Fernanda Abreu e Ivo Korytowski, Sextante, 2012) 

Ex-libris


Na Europa, as marcas de comerciantes em pacotes de mercadoria eram comuns no século 13. Em 1457, pouco depois da invenção da arte de imprimir, surgiu entre os impressores o costume de usarem uma gravura com um emblema ou desenho simbólicos da sua arte, do seu nome ou dos seus antepassados. As etiquetas dos primeiros impressores apresentavam ilustrações de brasões de armas, animais, peixes, árvores e flores, bem como grande variedade de figuras humanas. As marcas de identificação de propriedade tinham o mesmo propósito dos ex-libris modernos, mas é agora o editor que coloca o seu emblema nas sobrecapas dos livros. Embora a técnica de reprodução dos ex-libris não tenha mudado muito, a indústria de brochuras exigia uma linguagem visual mais sofisticada que incluía desenhos eróticos e despojada tipografia.
Ex-libris © Stephen Gooden / © Michel Fingesten / © Zdenek Mezl / © Erich Schöner (Douglas C. McMurtrie, O livro - impressão e fabrico, tradução Maria Luísa Saavedra Machado, Fundação Calouste Gulbenkian, 1982 / Ernst Lehner, Symbols, Signs and Signets, Dover Publications, 1969. Reproduções Graphis # 166, 1973/74)

domingo, 29 de setembro de 2013

Coisas nas bocas


Cartaz comemorativo dos 50 anos dos Rolling Stones, por John Van Hamersveld. Artista gráfico e ilustrador, autor do livro 50 Years of Graphic Design (Gingko Press, 2013), Van Hamersveld projetou capas para bandas como The Beatles, Grateful Dead, The Beach Boys, Jefferson Airplane, Blondie e The Rolling Stones: o impacto e o legado duradouro da famosa capa do álbum Exile On Main Street (1972), layout e design de Van Hamersveld, composta de fotos de figuras bizarras, e reproduzidas por Norman Seeff, foram incorporadas de uma maneira extremamente simbólica, seguindo a linha "e nós é que somos esquisitos?", conceito criado pelo fotógrafo Robert Frank. E a música? Segundo o crítico David Hutcheon, nem tudo o que se ouve falar do disco é verdade, mas é melhor acreditar na lenda. Os Stones nunca mais seriam tão bons  O cartaz End Bad Breath, de Seymour Chwast, co-fundador dos Push Pin Studios e diretor do The Pushpin Group, uma xilogravura retratando o Tio Sam de boca bem aberta, mostrando aviões bombardeando o Vietnã, "expressava de forma eloquente a criminosa e banal política norte-americana no sudeste da Ásia." Chwast sempre agiu politicamente de maneira consciente, participou ativamente das manifestações a favor do desarmamento nuclear, dos protestos contra a guerra do Vietnã e apoiou o Movimento dos Direitos Civis. Em 1983, foi eleito para o Hall of Fame do New York Art Directors Club  Capa de Sidewalk, o primeiro livro de Jeff Mermelstein, vencedor do Prêmio European Publishers de fotografia em 1999. Mermelstein transmite seu entusiasmo pela cidade de Nova York por meio de seus habitantes, um comentário visual inteligente da dinâmica da metrópole. Como todo artista, o trabalho de Mermelstein engloba a influência de outros fotógrafos, Winogrand, Arbus, Friedlander, Weegee, Eggleston, experimentando, como eles, abordagens intuitivas da paisagem urbana. Filho de sobreviventes do Holocausto que imigraram para os Estados Unidos em 1947, Mermelstein estudou biologia; poderia ter sido dentista, como desejava sua mãe. A fotografia profissional, por sua vez, não foi uma escolha e sim uma certeza  Um índio de chapéu alto e o título May the baby Jesus shut your mouth and open your mind, propaganda de "cigarros" encontrada em um banheiro público em São Francisco, a cidade da contracultura dos anos 60, da qual participava o jovem produtor Chet Helms (1942-2005), fundador da Family Dogs Productions. As drogas eram legais na Califórnia até 1966, e sua influência na percepção, era simulada no trabalho gráfico por meio de cores vibrantes, letras ilegíveis e ilustrações antigas. Para promover os concertos de rock do clube de dança The Family Dog, a pedido de Helms, os artistas gráficos e designers Wes Wilson, Victor Moscoso, Stanley Mouse, Rick Griffin e Alton Kelley imprimiram a imagem do índio em seus  cartazes psicodélicos  "Eu tive um professor humilde e inteligente até as tripas. Me contou certa manhã, de forma tímida, que ao chegar em casa horas depois de lecionar, escondia-se no recanto de sua biblioteca (feito um fantasma), retirava da pasta de textos alguns trabalhos e, conscientemente, os comia. O mestre, sob os efeitos do tema da assertiva do colegiado, terminava seu apólogo de boca cheia: - Tudo cópia, tudo!"
© John Van Hamersveld (cartaz Exile, 2012. Reprodução gentilmente cedida pelo artista. Link John Van Hamersveld) / © Seymour Chwast (cartaz End Bad Breath, 1968. Reprodução gentilmente cedida pelo designer / Steven Heller, Linguagens do design: compreendendo o design gráfico, tradução Juliana Saad, Edições Rosari, 2007. Link The Pushpin Group) / © Jeff Mermelstein (capa Sidewalk / Foto New York City, 1992 / Dewi Lewis Publishing, 1999. Reprodução gentilmente cedida pelo fotógrafo. Link Jeff Mermelstein) / © The Family Dog (Richard Hollis, Design Gráfico, uma história concisa, tradução Carlos Daudt, Martins Fontes, 2001. Link The Family Dog) / © Giuliano Quase (Farofada / miniconto. Link Noturno Citadino). Todos os direitos reservados.

Cartazes pela paz na Síria


Os cartazes sempre exerceram um importante papel nos apelos à paz e ao desarmamento. A série de cartazes em defesa dos direitos humanos e contra o massacre do povo sírio, projeto iniciado pela Ne Rougissez Pas!,  lançou a chamada "Aux Armes Citoyens!" para que outros artistas produzissem mensagens de repúdio a guerra civil na Síria: mais de 100 mil pessoas foram mortas desde março de 2011, quando começaram os protestos contra o presidente Bashar al-Assad. Projetados por renomados artistas gráficos, fotógrafos, arquitetos e designers de diferentes nacionalidades, como Yossi Lemel (Israel), Pierre Bernard (França), Marlena Buczek (Estados Unidos), Mario Fuentes (Equador), entre outros. 
Cartazes: © Mario Fuentes (Syrian war, happy devil) / © Andrea Costa (Stop war in Syria / França) / © Hsueh Yi Ji (Anti-guerre, la paix a bessoin de vous) / © Marlene Buczek (Don't mind us) / (Reproduções gentilmente cedidas. Todos os direitos reservados. Link Aux Armes Citoyens!)

domingo, 25 de agosto de 2013

Artefatos


Granada ARGES HG 84, leva 5 segundos para explodir após ser acionada. O químico e industrial sueco Alfred Nobel (1833-1868) possuiu um total de 355 patentes – as mais importantes das quais na área de explosivos: a cápsula detonadora para nitroglicerina, gelignite, a chamada gelatina explosiva e a balistite, ou pólvora de Nobel, revolucionaram a tecnologia das munições militares. No seu testamento, Nobel estipulou que a maior parte de seu patrimônio fosse administrada por uma fundação, e os dividendos distribuídos, em forma de prêmios, àqueles que, durante o ano precedente, tivessem prestado os maiores benefícios à humanidade  Capa da Domus, revista italiana especializada em arquitetura, arte e design, projeto do casal de artistas gráficos Tibor (1949-1999) e Maira Kalman. Mix it up, a capa que Maira desenvolveu para a revista era uma pintura composta por um batedor de ovos da coleção de Tibor. A composição do texto enfatiza a ideia de movimento. Segundo o sociólogo Jean Baudrillard "a posse jamais é a de um utensílio, pois este me devolve ao mundo, é sempre a de um objeto abstraído de sua função e relacionado ao indivíduo. Todo objeto tem desta forma duas funções: uma que é a de ser utilizado, a outra a de ser possuído"  Publicidade do escritório Eames para a cadeira plywood, fabricada e comercializada pela Herman Miller em 1951. O casal Charles (1907-1978) e Ray Eames mudaram a forma de como o mundo se senta. Além de mobiliário, os Eames criaram talas para o exército americano, projetos de arquitetura, a casa dos Eames – construção organizada a partir de elementos estruturais para pronta entrega, além de filmes, exposições e espetáculos multimídia. Em sua qualidade de designer e editor, Tibor Kalman disse: "Charles e Ray mudaram tudo"  Nas décadas de 60 e 70, grande parte do trabalho gráfico japonês, especialmente na área dos cartazes, usava imagens cuja relação com o produto anunciado era distante. Quando foi solicitado a Shigeo Fukuda (artista plástico e gráfico de grande prestígio internacional, 1932-2009) projetar uma série de cartazes sobre o tema da poluição ambiental, ele abordou o problema de um ângulo inesperado. Para refletir sobre as causas e consequências do desenvolvimento urbano e industrial sem planejamento, Fukuda mostrou objetos do cotidiano sem valor de uso  O historiador Rafael Cardoso ressalta que, "saber compreender os artefatos é saber que eles mudam no tempo, impelidos pela ação dos usuários e condicionados pela força do ambiente, até os limites suportados por sua materialidade." Um mundo de objetos que se modifica diante de nossos olhos: "Assim como quase não há mais substância que não tenha seu equivalente plástico, também não há mais gesto que não tenha seu equivalente técnico" (Jean Baudrillard). 
Granada / foto reprodução Colors # 9 / © Design Tibor e Maira Kalman (Domus # 801, fevereiro de 1998 / Peter Hall, Michael Bierut, Tibor Kalman: Peverse optimist, Princeton Architectural Press, 2000 /Jean Baudrillard, O sistema dos objetos, Editora Perspectiva, tradução Zulmira Ribeiro, 1973) / © The Eames Office (Publicidade, Molded Plywood, 1951 / Naomi Stungo, Charles e Ray Eames, Cosac Naify, 2000) / © Design Shigeo Fukuda (cartaz da série Environmental Pollution, 1973 / Graphis # 178) / (Rafael Cardoso, Design para um mundo complexo, Cosac Naify, 2012).

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Mágicos


Em 1934, Mandrake aparecia em tira diária no suplemento do jornal americano Man of Mystery. "Para o nome Mandrake, o autor Lee Falk (1911-1999) se inspirou no livro A Mandrágora, sobre a planta misteriosa, tema básico da trama de Maquiavel." Desenhado por Phil Davis (1906-1964), que lhe confere os traços do seu próprio rosto, a figura foi composta como uma síntese de todos os mágicos de vaudeville. Mandrake pertence ao gênero fantástico, um heroi com poderes mágicos - hipnose e telepatia, e às situações extraordinárias vividas por seu fiel companheiro, rei de uma distante tribo africana, Lothar, e pela princesa Narda, a eterna noiva do mágico The magic show, filme inacabado de Orson Welles (1916-1985), um especial para televisão, rodado entre 1976 e 1985, que ele próprio produziu e atuou executando truques de mágica, arte que aprendeu com o famoso Houdini. O Museu de Cinema de Munique restaurou e editou um corte de 27 minutos do filme de Welles, exibido em festivais, em 2000 No livro Alexander -The man who knows, biografia de Claude Alexander Conlin (1880-1954), por David Charvet, duas histórias são narradas. Na primeira edição (1994) o relato sobre a rápida ascensão do mentalista de palco, que ganhou quatro milhões de dólares ao longo de sua carreira relativamente curta, na década de 1920. A segunda edição (2006), revisada e ampliada, inclui detalhes sobre os seus sete casamentos, seu plano de extorsão a um magnata do petróleo, a tentativa de fuga em alta velocidade num barco carregado com licor falsificado, o tempo em que permaneceu na cadeia e penitenciárias federais, e os quatro homens que ele admitiu ter matado. Nos seus cartazes de divulgação acentua-se aquela atmosfera misteriosa, marca registrada de Alexander Em 6 de dezembro de 1920, no teatro Folly no Brooklyn, o famoso escapista Harry Houdini (1874-1926) foi assistir ao show do ilusionista Howard Thurston (1869-1936). Havia uma rivalidade entre eles. No centro do palco iluminado estava sua assistente Fernanda, vestida como uma autêntica princesa indiana. Thurston hipnotiza a jovem, que lentamente começa a flutuar. Mais tarde,Thurston convida Houdini para subir ao palco, cruza os braços e pede a ele que passe o aro de metal por meio do corpo suspenso de Fernanda. No dia seguinte, Houdini escreve: fiquei sozinho com o aparelho, sabendo exatamente como é feito um truque de levitação, eu o admiro ainda mais do que o público, que não faz a menor ideia dos problemas mecânicos. Howard Thurston ganhou o título de maior mágico da América. Para Orson Welles: "Ele foi o melhor mágico que eu já vi." "No circo, uma mãe imprudente deixa o filho prestar-se à experiência de um mágico chinês. Metem-no num cofre. Abre-se o cofre; está vazio. Fecha-se o cofre. Abrem-no; a criança aparece e volta para o seu lugar. Ora, já não é a mesma criança. Ninguém dá por isso." 
Mandrake (Álvaro de Moya, História da história em quadrinhos, L&PM Editores, 1986) / T Orson Welles, The magic show (Munich Film Archives) / Cartaz Alexander (© David Charvet, Alexander - The man who knows, 2006. Link MC magic words) / Cartaz Thurston (© Jim Steinmeyer, The last greatest magician in the world: Howard Thurston versus Houdini & the battles of the american wizards, 2012. Link Jim Steinmeyer) / (Jean Cocteau, Desatino, tradução Freitas Leça, Livros do Brasil,1958)