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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Diabruras


O diretor dinamarquês Benjamin Christensen (1879-1959) explorou o sobrenatural na sua obra-prima: Häxan - A feitiçaria através dos tempos (1922), cujo elenco reunia excelentes atores e figurantes retirados de um hospital, com sua mistura surreal de documentário, e sequências ficcionais, muitas vezes imbuídas do espírito de Hieronymus Bosch ou Francisco de Goya. "O filme era um ataque visceral contra o fanatismo religioso, embora também encontrasse espaço para um humor sarcástico — especialmente quando o próprio diretor surge como Satanás, interpretando o papel nu em pelo." Häxan foi banido dos Estados Unidos e de outros países por suas cenas de tortura e nudez  Em 1916, o escritor austríaco Walter Serner (1889-1942) passou a integrar o círculo Dadá, e editou uma revista correspondente, a Sirius. Serner, um niilista declarado, sofria de nojo pela humanidade porque descobrira o que Brecht anunciou a vida inteira, ou seja, que o ser humano é fraco demais para ser realmente bom, e bom demais para ser mau. "O cidadão burguês via no dadaísta um sujeito maléfico, um malfeitor revolucionário que estava de olho nos seus sinos, nas suas caixas-fortes e nas suas honrarias. O dadaísta inventava travessuras, para perturbar o sono do burguês. Ele mandava notícias falsas aos jornais e fazia com que o burguês ficasse confuso e sentisse um longínquo porém violento estremecimento, de maneira que seus sinos começavam a tilintar, suas caixas-fortes enrugavam as testas e suas honrarias começavam a apresentar manchas"  Cartaz criado pelo artista gráfico e ilustrador polonês Roman Cieślewicz (1930-1996), para a ópera Os Diabos de Loudun (1969), do premiado compositor polonês Krzysztof Penderecki. Baseada no livro de 1952, de Aldous Huxley, esta obra quase se tornou um clássico da ópera, graças ao disco e à popularidade suspeita do tema. Desde que Huxley contou essa história verídica de freiras histéricas, com fundo de erotismo, tortura e sobrenatural, o público não se cansa dessa interpretação. Penderecki escreve uma música sensual, cujo sucesso contribuiu para transformar as relações entre o grande público e a música de vanguarda  A arte de Sean Madden, por motivos emocionais, estéticos, mescla influências do surrealismo, de Salvador Dali e Ernst Fuchs, até a psicodelia e quadrinhos underground. Mas cada apropriação de um estilo, é desviada para construção de sua práxis artística, a "Psychotic Reaction". O antigo tema do Papa no inferno foi estudado pelo historiador da arte E. H. Gombrich (magia, mito e metáfora). A primeira campanha de sátira pictórica com organização sistemática — a de Martinho Lutero, contava com o apoio de uma famosa série de xilogravuras, em que o Diabo ou demônios são frequentemente mostrados em diversas imagens, como ao atirar o Papa para o inferno. O Diabo faz parte do mito, isto é, do sistema de crenças compartilhadas que mantém uma sociedade unida. Poucos de nós ainda pensa assim; no entanto, o Diabo continua vivo em nosso discurso, nas metáforas que usamos em expressões de desaprovação, ou até mesmo em expressões de carinho, como quando uma criança travessa é descrita como um diabinho  "Um velho rabino na Polônia ou adjacências estava andando numa tempestade de uma aldeia para outra. Não tinha muita saúde. Era cego, coberto de chagas. Tropeçando em alguma coisa, caiu na lama. Levantando-se com dificuldade, ergueu as mãos para o céu e gritou: Louvor a Deus! O Demônio está na Terra e fazendo seu trabalho maravilhosamente!" (John Cage). 
Cartaz do filme Häxan (autor desconhecido, 1922) / Francis Picabia (capa revista Dadá, Zurique, 1919 / Hans Richter, Dadá: arte e antiarte, tradução Marion Fleischer, Martins Fontes, 1993) / © Roman Cieślewicz (cartaz Diably z Loudun, 1969 / Roland de Candé, História universal da música, tradução Eduardo Brandão, Martins Fontes, 1994) / The Assassination of the Pope / Cortesia de © Sean Madden. Link Sean Madden Art (E. H. Gombrich, Os usos das imagens: estudos sobre a função social da arte e da comunicação visual, tradução Ana Freire de Azevedo e Alexandre Salvaterra, Bookman, 2012)

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Onomatopeia


Top!Top!Top! A onomatopeia mais usada pelo criador dos Fradinhos (Comprido e Baixim), o cartunista, quadrinista, jornalista e escritor Henfil (Henrique de Souza Filho, 1944-1988), publicada em O Pasquim, em 1969, do qual ele foi um dos fundadores. Em 1964, começou a fazer cartum na revista Alterosa, em Belo Horizonte. A partir de 1970, produziu cartuns políticos para o Jornal do Brasil, onde lançou os personagens Zeferino, Graúna e Bode Orelana no Caderno B. No final de 1973 muda-se para Nova York e através do Universal Press Syndicate distribui os quadrinhos Little Monks (Fradinhos) em dez jornais americanos e um canadense. Volta para o Brasil em 1975. Seus cartuns e charges apresentam um retrato crítico da realidade política e social brasileira dos anos 1970 e 1980. O seu traço original permanece tão vivo, que faz a obra de Henfil parecer tão curiosamente atual. Entre as onomatopeias criadas por Henfil estão Cusp! (cuspe) Arout! (arroto) e Xuipt! (beijo)  No livro Shazam!Álvaro de Moya, o maior especialista em história em quadrinhos do Brasil, desenvolve sua análise das onomatopeias — razão e representação: "A história em quadrinhos — falante desde o início, muito antes do cinema já possuía trilha sonora, com balões (diálogos) — vai buscar na trilha sonora cinematográfica mais um elemento que possa dar uma maior movimentação, exprimindo sons e ruídos que não podiam figurar nos diálogos (balões). E tal influência da onomatopeia, longe de extinguir-se, aumenta continuamente. Em cada dez onomatopeias e signos gráficos criados pelas histórias em quadrinhos, pelo menos cinco desfrutam do uso corrente na publicidade e duas na linguagem coloquial"  As formas em cores uniformes e as letras sem serifa, efeito explorado durante muitos anos por Félix Beltrán, um importante designer gráfico e ilustrador cubano que trabalhara em publicidade nos Estados Unidos. O cartaz "Clik. Ahorro de electricidad es ahorro de petroleo" (Poupar energia é poupar petróleo), faz parte de uma campanha encomendada pelo estúdio governamental Intercomunicaciones para promover a conscientização do uso dos recursos energéticos na ilha de Fidel. Na década de 1960, a simplicidade técnica desses cartazes advinha de necessidades econômicas. Beltrán estudou na New School for Social Research e no Graphic Art Center do Pratt Institute, em Nova York. Desde 1982 leciona na Universidad Autónoma Metropolitana do México e professor convidado da Escuela de Diseño de Altos del Chavón da República Dominicana  O quadro Takka Takka de Roy Lichtenstein (1923-1997) proporciona um conhecimento do papel que as imagens desempenharam e que continuarão a desempenhar na guerra. O artista limita-se a mostrar as armas no momento em que cumprem o seu propósito, como que automaticamente e somente porque foi para isso que foram construídas em grande quantidade. Nem o atirador nem a sua potencial vítima estão visíveis, nem nunca apareceram. Devido à atitude de protesto generalizado que dominou os anos 60, alguns críticos concluíram que a história em quadrinhos de guerra podia significar uma afirmação de pacifismo. Entretanto, Lichtenstein não pintou para melhorar a humanidade: "A minha opinião pessoal é que muito da nossa política tem sido inacreditavelmente aterradora, mas este não é o tema do meu trabalho e eu não quero tirar dividendos desta posição popular. Minha obra diz mais respeito à nossa definição americana das imagens e da comunicação visual." 
© Henfil / Fradim Baixim / Cortesia de Ivan Cosenza de Souza. Link Instituto Henfil / Cartaz Batman / Nonsense! There are no such things as - UHH! / Autor desconhecido, 1966 (Álvaro de Moya, Shazam!, Editora Perspectiva, 1977) / © Félix Beltrán (cartaz Clik, serigrafia, c. 1969 / Richard Hollis, Design gráfico: uma história concisa, tradução Carlos Daudt, Martins Fontes, 2000) / © Roy Lichtenstein (Takka Takka, magna sobre tela, 1962, Museum Ludwig, Colônia / Jamis Hendrickson, Roy Lichtenstein, tradução Zita Morais, Taschen, 1996 / Klaus Honnef, Pop art, tradução Constança Paiva Boléo, Taschen, 2004)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Olimpíadas


Herdeiros de uma arte com fortes raízes populares e de uma técnica de produção de desenhos em xilogravuras — com a extraordinária escola criada por José Guadalupe Posada (1852-1913), e um estilo original de design gráfico com a Editora Era, fundada em 1960, o logotipo para os Jogos Olímpicos do México 1968, o único exemplo de alcance internacional no campo de design gráfico, foi desenvolvido por um norte-americano — Lance Wyman. O designer projetou o logo com formas geométricas reduzidas para simular movimento, um estilo de grafismo conhecido como op art ● O designer alemão Otl Aicher (1922-1991) foi professor, co-reitor e reitor da Escola de Ulm, que ajudou a fundar, entre 1954 e 1966. Apesar de Aicher ter trabalhado como designer de identidade corporativa, é mais conhecido pelo programa de identidade visual das Olimpíadas de Munique 1972. A equipe de Aicher criou uma linguagem que orientava os visitantes pela cor e um sistema de pictogramas que é conhecido e usado até hoje. A Alemanha foi o primeiro país a não usar cores nacionais em uma olimpíada ● O fotógrafo alemão Marc Ohrem-Leclef percorreu 13 comunidades da cidade do Rio de Janeiro afetadas pela remoção em função da Copa do Mundo 2014 e para os Jogos Olímpicos de 2016, megaeventos organizados por entidades de cunho privado, mas financiados por verbas públicas. Ohrem-Leclef faz um exame de cada comunidade na qual a política implementada pelo governo está trazendo mudanças, e, tendem para impor às suas obras a expulsão dos pobres das áreas valorizadas. No livro Olympic Favela, projeto iniciado em 2012, suas fotografias demonstram preocupação direta com os moradores das comunidades carentes, retratados na frente de suas casas marcadas com a sigla SMH (Secretaria Municipal de Habitação) nas ações de despejo forçado, e erguendo tochas de emergência, um gesto como símbolo de resistência e libertação. Ao compartilhar o livro com os moradores, o fotógrafo sensibilizou-se com as mensagens de boa sorte, e ainda, sobretudo, com o sentimento de otimismo. Olympic Favela foi selecionado como um dos melhores livros de 2014 pela revista American Photo, e foi destaque na ARTnews, Daily Mail, WDR, Der Spiegel, CBC, entre outras publicações internacionais  Por ocasião dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, o designer gráfico e tipógrafo inglês Jonathan Barnbrook criou uma série de pictogramas, fontes e cartazes. O projeto Olympukes 2012 é uma leitura alternativa e espirituosa, mas com base em uma cuidadosa pesquisa dos principais acontecimentos políticos, econômicos, sociais e culturais, e a polêmica em torno dos jogos olímpicos atuais: gastos excessivos com tecnologia e medidas de segurança, violação dos direitos humanos, favorecimento explícito, influência política e ganância inescrupulosa.
© Lance Wyman (logotipo dos Jogos Olímpicos do México 1968) / © Otl Aicher (cartaz Olimpíadas de Munique 1972. Alexandre Wollner e a formação do design moderno no Brasil: depoimento sobre o design visual brasileiro / Um projeto de André Stolarski, Cosac Naif, 2005) / Olympic Favela / Cortesia de © Marc Ohrem-Leclef (Editora Damiani, 2014. Link Marc Ohrem-Leclef) / © Jonathan Barnbrook (cartaz Olympukes 2012. Link Virus fonts)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Correspondência


"Escrever, para quem? a. Para os contemporâneos (cartas e publicações) b. Para a posteridade (relevos egípcios e testamentos) c. Para si mesmo (rabiscos infantis, diários e cadernos de apontamentos)." Nota de Gauguin sobre o intercâmbio de quadros com Van Gogh  Carta de Saul Bass (1920-1996) a Stanley Kubrick (1928-1999) apresentando cinco novos projetos de cartazes para o filme O iluminado (1980). Na década de 50, Bass criou aberturas de filme e cartazes de grande efeito visual usando recortes de papel para dois longas-metragens de Otto Preminger, The Man with the Golden Arm (1955) e Anatomy of a Murder (1959). Bass desenvolveu uma linguagem simplificada e simbólica do design, que tentava exprimir as qualidades essenciais dos filmes  Nos anos 1990, o FBI (Federal Bureau of Investigation) usou um software digital chamado Carnivore para vigiar o tráfego da internet. Esta tecnologia orwelliana deu a possibilidade aos agentes de ler mensagens de correio eletrônico dos cidadãos comuns. Como resposta a esta forma de vigilância, uma equipe de artistas chamada RSG, Radical Software Group, desenvolveu CarnivorePE (PE significa Personal Edition). O CarnivorePE funciona como uma plataforma ou uma ferramenta para os artistas de New Media Art. Onde o FBI usa o seu software para vigiar os suspeitos, o RSG transforma a atividade encoberta da vigilância em expressão artística  Carta ao vento, xilogravura de Torii Kiyohiro, período Edo (1615-1868). O haiku, pequeno poema em torno da figura e a caligrafia concebida em ritmos rápidos, obedeciam aos estilos dominantes da época. Gravuras como esta, revelando partes normalmente encobertas do corpo feminino, técnica conhecida como abunae (imagens "perigosas") eram populares no Japão no século 18  Zuzu Angel (Zuleika Angel Jones, 1921-1976), estilista cujo filho foi preso, torturado e morto por membros do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa) em 1971, e que deixava na casa do compositor Chico Buarque bilhetes relatando sua história. No último deles, em 1975, alertava para a possibilidade de ser morta pelos mesmos assassinos de seu filho Stuart Edgart Angel Jones. Zuzu foi silenciada em um suposto acidente de carro. Em 1998, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos julgou o caso e reconheceu o governo militar como o responsável pela morte da estilista. Angélica (1977), de Chico Buarque e Miltinho, canção composta para Zuzu Angel: Quem é essa mulher / Que canta como dobra um sino? / Queria cantar por meu menino / Que ele já não pode mais cantar.
(Catálogo da exposição A arte da escrita, Unesco, 1965) / © Saul Bass (Stanley Kubrick / LACMA / Charlote e Peter Fiell, Design do século XX, Taschen, 2000) / © RSG ( Amalgamatmosphere, 2001, cliente da CarnivorePE por Joshua Davis, Branden Hall e Shapeshifter / Mark Tribe e Reena Jana, New media art, Taschen, 2010. Link RSG) / Torii Kiyohiro (Carta ao vento, xilogravura policromada, tinta e cor sobre papel, c. 1751-1764, British Museum) / Zuzu Angel (Reprodução / Chico Buarque: O tempo e o artista, Regina Zappa, Biblioteca Nacional, 2004)

quinta-feira, 26 de março de 2015

Sereia


Ex-libris, marca de impressor, litografia de Ludmila Jiřincová (1912-1994). Depois de ter estudado pintura e cerâmica escultural na Academia de Belas Artes de Praga e artes gráficas em Paris, Jiřincová tornou-se membro da Society of Collectors and Friends of Ex-libris na década de 1960. Trabalhou como ilustradora de capas de livros, muito especialmente livros de poesia. A artista tcheca criou mais de 2 mil pinturas. Foram no entanto os seus belos desenhos que lhe trouxeram o reconhecimento internacional  A atriz italiana Gina Lollobrigida na capa de Show, ilustração de Paul Davis, revista editada por Henry Wolf. Ilustrador e designer gráfico, Davis desenvolveu um estilo visual particular que o destacava de seus contemporâneos. No final da década de 1960 e o início da década de 1970, tornou-se um dos melhores ilustradores na criação de capas de revistas, como a representação religiosa do revolucionário Che Guevara para a Evergreen, e em design gráfico de cartazes, a sua versão de Hamlet para o New York Shakespeare Festival, desafiaram as convenções da publicidade teatral. O seu trabalho tem sido objeto de inúmeras exposições em galerias e museus em toda a Europa, Estados Unidos e Japão. Davis é membro do corpo docente da School of Visual Arts, membro da American Academy em Roma, membro do Art Director's Hall of Fame e um membro do prestigioso programa Applemaster  The Bather, de William P. Immer, integra a série de cinco audaciosos estudos que faz parte da exposição com o título "Period", criada especialmente para a Galeria Aureus Contemporary. Nas suas pinturas — apropriadas a partir das representações de pintores da arte figurativa como a Baigneuse de Valpinçon de Ingres (1780-1867), Immer apresenta novas associações, cujos valores, para o artista, dependem dos múltiplos significados que elas já assumiram na mente do espectador. E a ideia é esta, quebrar a distância entre o observador e essa união de detalhes que chamamos de história da arte  A sereia art nouveau de Odilon Redon (1840-1916) é a reprodução fotográfica de uma das três litografias executadas pelo pintor para a edição do Un coup de dés (1897) de Mallarmé (1842-1898). O poeta francês, pouco antes de morrer, corrigiu provas desse livro, que nunca chegou a ser editado. As provas do texto e das litografias foram recuperadas e publicadas pela primeira vez por Robert Greer Cohn em Mallarmé's Masterwork: New Findings, 1966. Seguindo uma pista de Cohn, o poeta, tradutor, ensaísta e professor Haroldo de Campos (1929-2003) obteve da Houghton Library uma fotografia da sereia de Redon, reproduzida em seu Mallarmé, 1972. "Fica assim restituída ao leitor a evocação redoniana da estatura frágil tenebrosa / ereta / em sua torsão de sereia que irrompe na página mallarmaica."
© Ludmila Jiřincová ( Ex-libris, litografia, sem data. Reprodução Graphis # 166) / © Paul Davis (Revista Show, agosto de 1963. Cortesia do ilustrador. Link Paul Davis Studio ) / © William P. Immer / Cortesia de Aureus Contemporary ( The Bather, 20"x 16", óleo sobre tela, 2011/ Link Aureus Contemporary Art Gallery) / © Odilon Redon (Mallarmé, Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Editora Perspectiva, 1974. Coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos)

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Detetives


Capa de Line-up detective crime (1951), de George Gross (1909-2003), um dos  ilustradores de pulp fiction da época, com suas personagens sedutoras, vilanescas e letais. Publicadas nos Estados Unidos entre os anos 1924 e 1969, as revistas pulp cobriam uma gama de gêneros - terror, mistério, aventura e policial - histórias de crimes reais contendo sexo, violência, sangue e mutilação, fizeram grande sucesso durante o período de guerra. O país era fascinado pelos fora da lei. As revistas sumiam das bancas a cada edição  Cartaz do artista gráfico e cenógrafo alemão Josef Fenneker (1895-1956) para o filme Der unsichbare Dieb (O ladrão invisível, 1920), de Gernot Bock-Stieber. Desde a proclamação da chamada Lei Cinematográfica do Reich em 1920, que justificava uma censura cinematográfica, todos os desenhos de cartazes tinham de ser aprovados pelos serviços de controle em Berlim ou em Munique. Fenneker desenhou os seus primeiros cartazes, principalmente os expressionistas, para os palácios cinematográficos frequentados pela classe média, como a famosa sala Marmorhaus, onde estreou O gabinete do doutor Caligari (1920), de Robert Wiene. Siegbert Goldchmidt, diretor da Marmorhaus, escrevia sempre o seu nome nos cartazes, mesmo quando o realizador ou os atores não eram mencionados. O sociólogo e crítico cultural Siegfried Kracauer (1889-1966) viu Hitler no Dr. Caligari. "Em filme após filme ele viu a sombra do que estava para vir - e do que tinha vindo na época em que completara suas investigações."  Ilustração da série The Spirit (1940), do desenhista norte-americano Will Eisner (1917-2005). Denny Colt é um personagem totalmente humano, um herói sem poderes especiais, um detetive falível o bastante para cometer erros e levar uns sopapos quando estivesse na ativa. The Spirit foi uma revolução: a escrita inovadora de Eisner, os planos cinematográficos, a influência do expressionismo alemão e as singulares splash pages (página de abertura da história). Eisner desenhou até morrer, aos 87 anos. "O mais significativo é que a obra de Eisner continuou a ser publicada. Numa ironia da qual ele teria gostado, sua última aventura com Spirit, o último trabalho que ele havia entregado antes de ir para o hospital, foi publicada na série em quadrinhos de Michael Chabon, O escapista"  Em 1973, Robert Altman (1925-2006) foi convidado para direção de The Long Goodbye, baseado no clássico de Raymond Chandler (1888-1959), mais um episódio na saga do detetive Philip Marlowe. A recusa foi enfática: um filme noir dos anos 40 não estava em seus planos. O projeto anterior mais conhecido foi The Big Sleep (1946), dirigido por Howard Hawks e protagonizado por Humphrey Bogart. Apenas quando a United Artists mencionou o nome de Elliot Gould para o papel de Philip Marlowe, e lendo o roteiro de Leigh Brackett, que mudava, e muito, o final do livro, Altman topou na hora. Colocou em seu contrato uma cláusula inédita que impedia o estúdio de modificar o final do filme em qualquer etapa da produção. Em The Long Goodbye (1973) a câmera nunca para de se mover e sempre aleatoriamente, não que haja algo proibido sendo mostrado, apenas o espectador é que não deveria estar lá.
© George Gross (capa Line-up detective crime, 1951) / © Josef Fenneker (cartaz Der unsichtbare Dieb, 1920 / catálogo Filmplakate aus der Weimarer Republic, Goethe-Institut, 1986 / Leif Furhammar e Folke Isaksson, Cinema e política, tradução Júlio Cezar Montenegro, Editora Paz e Terra, 1976. Reprodução / link Flickr) / © Will Eisner (splash page de The Spirit de 30 de novembro de 1947. © Will Eisner Studios Inc. / Denis Kitchen Art Agency. Reprodução, cortesia de Carl M. Gropper. Link Will Eisner / Michael Schumacher, Will Eisner: um sonhador nos quadrinhos, tradução Érico Assis, Editora Globo, 2013 / Eisner e a vida, sua arquiinimiga, por Carlos Haag, revista Bravo, 2006) / Cartaz The Long Goodbye, 1973 / Reprodução Robert Altman Gallery (catálogo da mostra As muitas vidas de Robert Altman, curadoria de Angelo Defanti, Centro Cultural Banco do Brasil, 2008) 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Papai Noel


Um confronto inusitado e divertido entre Papai Noel e Batman, história em quadrinhos criada pela roteirista Céline Fraipont e o desenhista Pierre Bailly, para a edição especial de natal da revista francesa Spirou, editada por Charles Dupuis. O embate entre o bem e o mal é aqui, no entanto, contra forças da própria vida: um Papai Noel tatuado e de aspecto cansado recebe a visita de um Batman deprimido. Nas histórias em quadrinhos, encontrar um argumento é simplesmente lançar um olhar aos problemas humanos  Capa da revista Esquire (edição de dezembro de 1963), o pugilista norte-americano Sonny Liston (1932-1970) ex-campeão mundial dos pesos pesados. Na publicidade e editorial deste período, os negros eram frequentemente retratados em cenários relacionados à história do racismo e escravidão. A publicação da fotografia de um "bad-man" como "bom velhinho" desafiou tradições culturais. Foi um escândalo, algo jamais imaginado no país mais "adiantado" do mundo Publicidade da Coca-cola, ilustração por Haddon Sundblom (1899-1976). Cuba é a sociedade mais igualitária em toda a América Latina, aquela na qual é menor a diferença entre os que têm mais e os que têm menos. E entretanto, o ideal igualitário é incompatível com o libertário. "Pode haver uma sociedade de homens livres e uma de homens iguais, mas não pode haver uma que ligue intimamente ambos os ideais em doses idênticas. Esta é uma realidade que se custa aceitar, porque se trata de uma realidade trágica, que desmistifica uma tradição de utopias liberais na qual ainda nos movemos." Cuba optou pelo ideal igualitário, apesar disso, milhares de cubanos estariam dispostos a qualquer coisa para fugir para países da desigualdade Antônio Gabriel Nássara (1910-1996), caricaturista, desenhista e compositor, aos 16 anos assistiu a um pega da polícia no largo da Carioca, cavalaria em cima do povo. Fez então o retrato falado do tenente que comandou o pelotão, publicado no jornal O Globo, em 1927. Daí em diante não deixaria mais a vida da imprensa. "Nássara produz o riso desconcertante com uma economia de desenho", escreveu o crítico de arte Paulo Herkenhoff: "A cor frequentemente introduz uma nota de ironia dramática aos seus temas, como o vermelho neste Papai Noel trucidado, esquartejado. Ao escrever "Welcome ao Cantagalo", Nássara aponta para um processo de globalização dos símbolos, da língua e da própria violência."
© Céline Fraipont e © Pierre Bailly (Un bras de fer avec le Père Noël, Spirou # 3895, 2012. Reprodução Actua BD) / Esquire (Sonny Liston, dezembro de 1963, Diretor de arte George Lois, fotografia Carl Fischer) / Haddon Sundblom (Coca-cola Company, 1952 / Mario Vargas Llosa, Contra vento e maré, tradução Carlos Jorge Rio Branco Bailly, Francisco Alves Editora, 1985) / © Nássara (Natal em Cantagalo, técnica mista, s/d / Francisco de Assis Barbosa, Nássara desenhista, Cássio Loredano, Funarte, 1985 / Paulo Herkenhoff, Biblioteca Nacional, A história de uma coleção, Editora Salamandra, 1996)

sábado, 7 de dezembro de 2013

Saudade

© Goebel Weyne (12 de novembro de 1933 - 7 de dezembro de 2012 / Fotografias: Nara Leão, Show Opinião, Rio de Janeiro, 1965 / Mãe, Rio de Janeiro, 1964 / Clementina de Jesus, Rio de Janeiro, 1964 / Arquivo da família Weyne. Todos os direitos reservados)

domingo, 1 de dezembro de 2013

Anjos e demônios


"1984" álbum da banda de hard rock Van Halen, projeto gráfico de Pete Angelus e Richard Seireeni, diretor de criação da Warner Bros Records, e ilustração por Margo Z. Nahas. David Lee Roth e Eddie Van Halen tinham insistido na ideia de usar na capa do novo disco uma ilustração de quatro mulheres dançando. A artista plástica achou que isso seria muito complicado e recusou o trabalho. Contudo, ao se deparar com uma pintura com a técnica de aerografia de seu portfolio todos gostaram da imagem, compreendendo afinal o conceito do anjo imperfeito de Nahas. O álbum vendeu 10 milhões de cópias Cartaz por Jan Lenica (1928-2001), pintor e artista gráfico polonês, para a ópera Fausto do compositor  Charles Gounod (1818-1893), inspirada no poema de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Fausto é uma obra-prima da literatura alemã e um clássico do cinema mudo (1926), do diretor F. W. Murnau (1888-1931), que transmite uma impressionante narrativa visual do anjo que aposta com Mefistófeles pela alma do protagonista. Uma história de amor complicada pelo diabo Capa de disco do compositor de blues Robert Johnson (1911-1938), nascido em Hazlehurst, Mississippi, o famoso Delta do algodão, com uma população afro-americana numerosa e isolada. Johnson conhecia bem as melodias e as estrofes improvisadas nas fazendas ou nos campos de prisioneiros espalhados ao longo das estradas enlamaçadas do Mississippi. A sua singular forma de tocar o violão, e dizia-se que ele podia ouvir uma música apenas uma vez e ser capaz de reproduzi-la, alimentaram a lenda de que Johnson tinha vendido sua alma ao diabo numa encruzilhada. Em 13 de agosto de 1938, um rival ciumento lhe serviu uísque com estricnina. Johnson sobreviveu ao envenenamento, mas contraiu pneumonia e morreu três dias depois. Tinha 27 anos, e a sua figura convertera-se num mito do blues  Pecora asbestos furnace cement, um desses casos clássicos em que a imagem impressa na embalagem passa a designar o produto. "Diabo vermelho", como passou a ser conhecido, indica o atributo do cimento por transferência ou comunicação por associação: suportar altas temperaturas Na religião cristã, o demônio é um anjo mau. "Na filosofia grega, gênio (espírito) bom ou mau, inferior a um deus, mas superior ao homem: o demônio de Sócrates era um gênio que lhe inspirava e dava conselhos." O historiador Luis da Camara Cascudo (1898-1986), em seu Dicionário do folclore brasileiro, faz a seguinte observação: "Como não me foi possível compreender um demônio entre os indígenas ou negros escravos, creio que negros e ameríndios ajudaram ao satanás dos brancos, ampliando-lhe domínio e formas sem que lhe dessem nascimento." Os anjos aparecem de variadas maneiras nos papéis de mensageiros, guerreiros e, no pensamento mais recente, guardiães ou protetores. No livro A incrível e triste história de Cândida Erêndira e da sua avó desalmada, o realismo fantástico de Gabriel García Márquez, a história do anjo que pousa numa aldeia da Colômbia e os pescadores o trancam no galinheiro.
Van Halen (capa 1984, Warner Bros Records / Link Margo Z. Nahas) / © Jan Lenica ( cartaz Fausto, 1964) / Robert Johnson ( King of the Delta Blues, 1997. Link Robert Johnson Blues Foundation) / Embalagem Pecora asbestos furnace cement / (Hilton Japiassú, Danilo Marcondes, Dicionário básico de Filosofia, Jorge Zahar Ed., 2008)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Amarrados


Amarrada até o pescoço. A propaganda para as lãs Pingouin, criada em 1965, é uma lembrança do tempo em que as mulheres ainda tinham tempo para trabalhos com a agulha. Por incorporar ideias de atar e desatar, capturar e soltar, o simbolismo do nó é muito complexo. O nó górdio, por exemplo, ao cortá-lo, Alexandre, o Grande, encontrou uma solução de curto prazo, mas nunca completou a conquista da Ásia prevista para o homem que conseguisse desatá-lo. A lição moral que o budismo retirou desse incidente foi de que é a paciência, não a violência, que desembaraça os nós Cartaz projetado pela agência de publicidade Wien Nord para o This Human World, festival de cinema da Áustria, evento dedicado exclusivamente a filmes nacionais e internacionais sobre direitos humanos, em parceria com o Ludwing Boltzmann Institute of Human Rights. Composto de duas peças, cartaz e lacre de plástico, esse pôster foi amarrado nas grades e estruturas de ferro nas calçadas – a superfície não-oficial para fixação de cartazes na cidade de Viena  "Business as Usual", obra iconográfica de Lou Brooks. Ilustrador e designer gráfico, sua arte em quadrinhos foi publicada durante dez anos na Playboy, que alcançou o status de cult. Brooks teve também uma grande atuação na criação de capas para as revistas Time e Newsweek. Entre seus projetos mais conhecidos estão o logo para o Jogo Monopólio, redesenhado em 1985, os livros Skate Crazy: Graphics from the Golden Age of Roller Skating (Running Press), Twimericks: The Book of Tongue-Twisting Limericks (Workman Publishing) e o Museum of Forgotten Art Supplies, que reúne mais de 500 imagens de artefatos das artes. Uma coleção capaz de embasar discussões entusiasmadas, já que, com tanta tecnologia disponível, alguns objetos não são mais fabricados, outros foram caindo em desuso. Imaginemos por um instante, um mundo sem lápis com uma borracha macia na ponta  It Was Once a Paradise, livro de fotografias por Nobuyoshi Araki, conhecido internacionalmente pelo conteúdo erótico de suas imagens – mulheres amarradas por cordas (kinbaku), nuas ou trajando um quimono de seda. As modelos, às vezes, estão acompanhadas de miniaturas de dinossauros e répteis da coleção do fotógrafo. Araki começou a trabalhar na década de 1960 fotografando o submundo urbano de Tóquio. Seu trabalho ganhou notoriedade a partir de 2005 e da primeira mostra em Londres, na Barbican Art Gallery. Sexo e morte são temas constantes na obra de Nobuyoshi Araki – até mesmo quando fotografa flores. 
Anúncio Lãs Pingouin (Francisco Gracioso e J. Roberto Whitaker Penteado, Propaganda Brasileira, Mauro Ivan Marketing Editorial, 2004 / Jack Tresidder, O grande livro dos símbolos, tradução Ricardo Inojosa, Ediouro,2003) / Wien Nord (cartaz Tied up, This Human World, Viena, 2009. Design © Eduard Böhler e © Edmund Hochleiter. Fotografia © Gregor Ecker. Links Wien Nord / This Human World) / © Lou Brooks ("Business as Usual", díptico, acrílico sobre tela 24"W x 36"H. Coleção particular. Reprodução gentilmente cedida pelo artista. Todos os direitos reservados. Link Lou Brooks) / © Nobuyoshi Araki (capa It Was Once a Paradise, Reflex, 2011. Link Nobuyoshi Araki / Juliet Hacking,Tudo sobre fotografia, tradução Fabiano Morais, Fernanda Abreu e Ivo Korytowski, Sextante, 2012)