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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Diabruras


O diretor dinamarquês Benjamin Christensen (1879-1959) explorou o sobrenatural na sua obra-prima: Häxan - A feitiçaria através dos tempos (1922), cujo elenco reunia excelentes atores e figurantes retirados de um hospital, com sua mistura surreal de documentário e sequências ficcionais, muitas vezes imbuídas do espírito de Hieronymus Bosch ou Francisco de Goya. "O filme era um ataque visceral contra o fanatismo religioso, embora também encontrasse espaço para um humor sarcástico — especialmente quando o próprio diretor surge como Satanás, interpretando o papel nu em pelo." Häxan foi banido dos Estados Unidos e de outros países por suas cenas de tortura e nudez  Em 1916, o escritor austríaco Walter Serner (1889-1942) passou a integrar o círculo Dadá, e editou uma revista correspondente, a Sirius. Serner, um niilista declarado, sofria de nojo pela humanidade porque descobrira o que Brecht anunciou a vida inteira, ou seja, que o ser humano é fraco demais para ser realmente bom, e bom demais para ser mau. "O cidadão burguês via no dadaísta um sujeito maléfico, um malfeitor revolucionário que estava de olho nos seus sinos, nas suas caixas-fortes e nas suas honrarias. O dadaísta inventava travessuras para perturbar o sono do burguês. Ele mandava notícias falsas aos jornais e fazia com que o burguês ficasse confuso e sentisse um longínquo porém violento estremecimento, de maneira que seus sinos começavam a tilintar, suas caixas-fortes enrugavam as testas e suas honrarias começavam a apresentar manchas"  Cartaz criado pelo artista gráfico e ilustrador polonês Roman Cieślewicz (1930-1996), para a ópera Os Diabos de Loudun (1969), do premiado compositor polonês Krzysztof Penderecki. Baseada no livro de 1952, de Aldous Huxley, esta obra quase se tornou um clássico da ópera, graças ao disco e à popularidade suspeita do tema. Desde que Huxley contou essa história verídica de freiras histéricas, com fundo de erotismo, tortura e sobrenatural, o público não se cansa dessa interpretação. Penderecki escreve uma música sensual, cujo sucesso contribuiu para transformar as relações entre o grande público e a música de vanguarda  A arte de Sean Madden, por motivos emocionais, estéticos, mescla influências do surrealismo, de Salvador Dali e Ernst Fuchs, até a psicodelia e quadrinhos underground. Mas cada apropriação de um estilo, é desviada para construção de sua práxis artística, a "Psychotic Reaction". O antigo tema do Papa no inferno foi estudado pelo historiador da arte E. H. Gombrich (magia, mito e metáfora). A primeira campanha de sátira pictórica com organização sistemática — a de Martinho Lutero, contava com o apoio de uma famosa série de xilogravuras, em que o diabo ou demônios são frequentemente mostrados em diversas imagens, como ao atirar o Papa para o inferno. O diabo faz parte do mito, isto é, do sistema de crenças compartilhadas que mantém uma sociedade unida. Poucos de nós ainda pensa assim; no entanto, o diabo continua vivo em nosso discurso, nas metáforas que usamos em expressões de desaprovação, ou até mesmo em expressões de carinho, como quando uma criança travessa é descrita como um diabinho  "Um velho rabino na Polônia ou adjacências estava andando numa tempestade de uma aldeia para outra. Não tinha muita saúde. Era cego, coberto de chagas. Tropeçando em alguma coisa, caiu na lama. Levantando-se com dificuldade, ergueu as mãos para o céu e gritou: Louvor a Deus! O demônio está na Terra e fazendo seu trabalho maravilhosamente!" (John Cage). 
Cartaz do filme Häxan (autor desconhecido, 1922) / Francis Picabia (capa revista Dadá, Zurique, 1919 / Hans Richter, Dadá: arte e antiarte, tradução Marion Fleischer, Martins Fontes, 1993) / © Roman Cieślewicz (cartaz Diably z Loudun, 1969 / Roland de Candé, História universal da música, tradução Eduardo Brandão, Martins Fontes, 1994) / The Assassination of the Pope / Cortesia de © Sean Madden. Link Sean Madden Art (E. H. Gombrich, Os usos das imagens: estudos sobre a função social da arte e da comunicação visual, tradução Ana Freire de Azevedo e Alexandre Salvaterra, Bookman, 2012)