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domingo, 25 de setembro de 2011

Lição de anatomia


Quando a fotografia de Che Guevara foi transmitida ao mundo numa terça-feira, dia 10 de outubro de 1967, para provar que ele tinha sido morto no domingo anterior em um confronto entre exército boliviano e guerrilheiros nas proximidades da aldeia de Higueras, o crítico de arte John Berger viu na foto de Freddy Alborta (1932-2005) semelhanças com o quadro do pintor holandês Rembrandt (1606-1669), A Lição de Anatomia do Doutor Tulp. O coronel Zenteno Anaya ocupa exatamente a mesma posição do professor cirurgião Tulp. As figuras olham para o cadáver com interesse de modo semelhante. A função das duas imagens também é similar, ambas mostram um corpo a ser examinado objetivamente. Mas, mais do que isso, as duas imagens têm a intenção de dar um exemplo dos mortos: um para o avanço da medicina, e o outro, uma advertência política. 
John Berger (Che Guevara Dead / Aperture, ensaio reimpresso da revista The Minority of One, 1968) / © Freddy Alborta / United Press international (Che Guevara, Vallegrande, Bolívia, 1967) / Rembrandt Harmenz van Rijn (A Lição de Anatomia do Doutor Tulp, 1632, Museu Mauritshuis, Haia)